Um Último Vibrato em Punjab

Um Último Vibrato em Punjab

*  Por Gabriel Chess  * 



<< Parte 1 >>

No dia 12 de janeiro de 2017, às exatas 19h44, eu, em sã consciência e ingenuidade, decidi checar minha correspondência. E no meio de tantas contas e propagandas encontrei aquele pedaço de papel encharcado, do qual me limito em chamar de carta. O clima nessa derradeira noite era bem coincidente com o conteúdo da misteriosa carta. Tratou-se de uma tarde de mormaço que previsivelmente se tornou algo mais desagradável, uma noite chuvosa de relampejar o céu. Ao sair de meu exaustivo trabalho, “deleitei-me” com o fato de ter-me esquecido de trazer um guarda-chuva, o que nessa cidade caótica é a mesma coisa que sair de casa sem meias. – Para os que não entendem sarcasmo, eu lhes dou uma pausa. Referindo-me ao esquecimento de um importante objeto de uso cotidiano, fiz uso da palavra deleite junto com o sufixo me, mas com a intenção de referir-me justamente o contrário. Ou seja, para o significado de frustração. Logo, a minha própria. Mas pressinto que no decorrer do meu relato usarei mais do precioso sarcasmo. Então haverá muitas oportunidades para você, pessoa vagarosa, aprender uma nova forma de se referir aos seus próprios infortúnios.
É sempre na mais plena calmaria que as  piores notícias vem a nós, disfarçadas (e preste bastante atenção de como me refiro a seguir) sob a impressão de bênçãos. Hoje eu sei que nada de realmente bom pode vir de uma carta. Com tantos meios de comunicação hoje existentes, uma carta direcionada exclusivamente a você, nunca – e repito, nunca – virá para algum benefício. Serão sempre problemas. Mas, por favor, não me julgue como uma pessoa pessimista ou ranzinza. Se eu começo meu primeiro relato de viagem desta forma, é por que fui, sem sombra de dúvidas, motivado pelas circunstâncias.
Continuando...
Depois de passados alguns minutos para que a carta secasse, eu com olhos curiosos pude finalmente abrir e ler aquilo que era uma intimação do que, de forma nostálgica, chamamos de amizade. Estranhamente, a carta não tinha remetente. Logo, tive de instantaneamente por meus olhos nas iniciais que pontuavam o papel. Posso dizer com convicção, que minha mente preguiçosa teve problemas para se lembrar das iniciais pseudociosas daquele que um dia teimou em usá-las.
A assinatura “M. del V.” era só o que eu tinha para me achar naquele texto quase sem contexto. Mas a memória de amigos – ainda mais os incomuns – sempre voltam para encher de saudades este peito velho. Então eu soube que M del V. era um reflexo do meu passado, um amigo. Antes de descrever o caráter deste célebre amigo, hei de explicar por que este – que empesteia meu relato com seu duvidoso jogo de deduções – atende por essas iniciais. Não ouso aqui citar seu nome verdadeiro, pois ele – pelo que posso me recordar – ainda me é estimado. O que posso dizer é que atende pelo nome M. de Vonchez, e que num jogo de palavras, com o intuito me despertar um sentimento nostálgico – presumo eu – assinou como “M. del V.”, tentando indubitavelmente me fazer deduzir – e me lembrar – de sua pessoa e caráter. Nisso ele obteve sucesso.
Lembro-me muito bem quem é esse que me escreve. Ouso dizer que nunca conheci outra pessoa como tal. Pois, assim como eu, ele tinha uma grande fome por jogos de gostos duvidosos. – Antes que haja algum mal-entendido, tais jogos são duvidosos, pois são muito teóricos para de fato serem “jogados”. Ainda mais por simples adolescentes que éramos. –. Ele sempre foi um problemático. Apesar de minha insensatez se igualar constantemente com a dele, por uma regra do destino, acabei por restringir tais loucuras momentâneas. Enquanto ele viveu por essas regalias. Ele é o que pode ser chamado de gênio forte. Não que realmente fosse de talentos extraordinários, mas de fato eram realmente incomuns. M. del V. podia deduzir os comportamentos mais complexos, porém, em aspectos mais simples da vida, era visivelmente um desastre emocional. Visto que, da última vez que conversamos – há pelo menos seis anos –, este de quem vos falo se envolvia cada vez mais em seu próprio drama pessoal; decidindo assim, partir para fora deste infeliz país, se acomodando futuramente em Portugal (pelo que diz em cartas passadas) – não especificando onde –. Éramos jovens. Ou seja, qualquer oportunidade que nos aparecia era uma saída de nossas vidas incompletas.
Voltando ao conteúdo da carta, não poderia sequer imaginar o motivo que ele teria, para depois de tanto tempo, se lembrar de nossa antiga amizade. Até definitivamente entender a droga do porquê. – Poupando-lhe da enorme prolixidade de meu amigo, resumirei aqui suas palavras com algumas citações que podem iluminar o contexto de minha inquietação atual. –. “Dito fato é, meu estimado amigo, que depois de todos esses anos, eu falhei em expandir meu círculo de amizades. Visto que digo com certa timidez, que talvez você seja ainda o único que tenho. ”{...} “A notícia é, prenderam-me! ” “Estou atrás das grades? Sim! E apertado até as últimas na questão monetária. Contudo, é evidente que não vim via carta pedir-lhe meados de moedas e constranger o respeito que sabe você, assim como eu, que ainda tem por mim ou de minha memória distante. ” {...} “Digo-lhe a verdade quando me refiro ao dinheiro como algo inútil para mim, já que desde que me sou um alguém pude me virar muito bem com a ausência dele. ” {...} “Tive conhecimento, por conversas alheias em outros círculos do vosso passado, que obteve sucesso em sua ida aos campos da área jurídico-criminal; sabia eu, desde fedelho, que você almejava esse status.”. {...} “Visto então que tenho a oportunidade perfeita para testar sua pouca experiência no ramo criminal. Nada menos do que salvar um amigo de futuras casualidades extremas.”.
– Já é tamanha a envergadura de meu glossário de sarcasmos, porém, mesmo tentando ler e sublinhar algumas palavras de sua carta, certamente não haverei de saber se seriam tais palavras do cunho satírico ou de um apelo emocional mal orquestrado...  Mas bem, que se foda o meu entendimento não é mesmo? Ele sabia como chamar minha atenção.  –
Primeiro há a antecipação.  Depois, a compra da passagem. Entretanto, é justamente na ida para o avião que se desenvolvem o medo e a dificuldade de acalmar os ânimos. Sinto falta dos tempos de enigma, mas não sei se minha agitação pode ser comparada com a loucura me proposta por ele. Mas ainda assim, algo queima em meu âmago. Quero solucionar o mistério. O que na prática é bem diferente de vivê-lo. Terei eu de passar por situações relutantes?
Dentro do avião, e (supostamente) pronto para a empreitada, olho para o endereço da carta, com as palavras de meu amigo, dizendo onde eu poderia encontrar a inóspita prisão de delegacia. “Meu caro D., peço que embarque no primeiro avião para Amritsar, em Punjab” {...} “Chegará mais rápido se seguir explicitamente minhas orientações” – Prossegue a carta. – “Encontre-me no vigésimo sexto distrito policial. É por lá que provavelmente estarei preso contra a minha vontade. ” {...} – Mas que belas instruções! Primeiro, vá para um país desconhecido e pegue um trem para um distrito aleatório. – “Ah! Mas não tenha pressa, pois espero que venha pelo expresso das 10h35m, de preferência no último vagão. ” – Bem conveniente, dar instruções vagas para achá-lo, mas detalhadas de como me locomover para fazê-lo. – “Há algo lá digno de sua atenção. ” – Maldito! Sempre conseguindo meus favores apelando para minha curiosidade juvenil!
– Punjab. Índia. Como é que esse diabo foi parar lá? O que será que o inquieta a ponto de se entrincheirar nessas ruas? E o pior, acabar sendo preso!
Sei que ele, depois de um surto emocional, optou por se emaranhar nas colinas de Portugal, Deus sabe-se lá onde. Mas ainda sim, tenho certeza (por julgar conhecê-lo) que M. del V. tem motivos muito peculiares para sair de sua toca.
Por céus o que eu estou fazendo? Será tão óbvio assim o meu descontentamento ambivalente? A ponto de, sem mais nem menos, deixar minha esposa e filha em casa, na esperança de que ele – um mal-amado – me proporcione novamente os jogos mentais que antes me excitavam? Isso só comprova a loucura que ambos dividimos. Tal qual um sentimento de impotência que se apodera de mim, como uma abelha que é atraída pelo gineceu transbordante de pólen. Admito, ele havia me ganho ao dizer “área criminal”. Causou em mim uma insegurança vital, de quem só tem a pequena parte de uma charada, como se minha única razão fosse o meu interesse pela área. Bastardo sedutor! Infeliz miserável! Sempre ultrapassou por demais os limites padrões de comportamento social. E eu, sou um infeliz que nunca sabe o que realmente quer! Estando sempre a mercê dos pretensiosos autodenominados gênios, mas que não passam de crianças niilistas também infelizes. De certo, com uma autoconfiança inflada. O voo é longo, preciso aquietar meus pensamentos. Não quero dormir, mas devo. Tenho de me preparar para a perfeita retórica que me é requerida amanhã.
Acordei cerca três horas antes do pouso. Não consigo descrever com palavras certas o meu trajeto até a estação de trem. O trânsito era caótico, mais até do que em terras nacionais. Os sotaques dificultavam o entendimento do inglês. A ansiedade estava altíssima. Continuo, como sempre, perdido.
O tempo passa rápido quando se busca por informações. Ainda mais, quando não se sabe por onde começar. Devo supostamente pegar o trem, pois lá há algo. Já passam das 07h49m, e a presença do sol já acalma os ânimos.
Não posso me atrasar.
Melhor seria pegar um táxi. Há tantas variedades deles...
Ignoro quase por completo o choque cultural. Era difícil não me entusiasmar melindrosamente com o incrível atoleiro de perguntas que devorava o meu raciocínio.
Do táxi para a estação. Andar por aqui me é estranho, todos seguem ligeiramente para seus rumos, circulando a minha volta, deixando-me zonzo.
Eu pergunto aos habitantes locais onde poderia comprar o ticket de embarque, e entendendo rasteiramente onde, logo encontrei. No guichê da estação, um senhor corpulento, com uma invejável madeixa bigoduda entrecortada por um nariz saltado. Tratou-me com conduta demais exagerada... Sendo obsceno não reparar que até os turistas conheciam melhor o lugar do que eu. – “Aos perdidos todos devem oferecer ajuda. ” – Disse-me ele, em inglês. Do contrário, a outra opção, creio eu, seria superfaturar o preço da minha passagem; todavia, minha sorte ainda me caia vitoriosa.
[10h10] Ticket já em mãos, junto à carta. Mãos já nos bolsos, escondendo a tremedeira. Costas doendo, banco desconfortável. Uma pausa para pensar.
O barulho da estação diminui. O sereno toque do silencio me agrada por instantes, enquanto minha mente tende a sentir culpa por ter partido sem dar muitas explicações à minha família; Enviando nada menos do que uma mensagem de voz, na tentativa de explicar os pormenores de forma concisa, falhando miseravelmente. No final, eu ouço minha própria mensagem, tentando me enganar de que fiz o certo. Na gravação pude escutar uma voz meiga e aguda de uma criança. Lembrei-me de minha filha, como em um confuso lapso. Mas a situação logo se abrandou. Pois, eu vi que ao meu lado, em outro banco, sentava-se uma mãe com sua filha. A criança brincava com um brinquedo característico: Um elefante, com um homem pequeno a lhe montar as costas, talhado de forma bela em madeira. Havia rodas nas quatro patas do animal. Deveras peculiar e interessante.
Parece-me cruel o que fiz. Partir dias antes do aniversário de minha filha, prometendo para ela um presente. Meus olhos não se distanciaram do pequeno elefante de brinquedo. Beirava a uma quase obsessão. – Antes que pensem de forma a denegrir a imagem que vocês têm de mim, digo-lhes de antemão que não. Não roubei o brinquedo da pobre criança. Pus-me já a procurar ao meu redor algo que pudesse amenizar minha culpa. Achei então a loja de souvenires, onde por sorte, na vitrine, havia outro elefante, igual ao que descrevi. Comprei-lhe consequentemente, mostrando pelo menos que ainda pensava na família que abandonei. Mesmo pelo pouco tempo que pretendo passar aqui. –


<< Parte 2 >>
[10h30] Tempo certo para embarcar. Último vagão, meus olhos a procurar mil detalhes.
O vagão se move, os trilhos estalam e os motores tiquetaqueiam em seus movimentos mecânicos. Eu soube quase sem perceber que os últimos vagões eram o que poderíamos chamar de primeira classe. Onde ainda existiam cabines particulares, em vez de assentos abertos. Eram decoradas de forma simples, mas nobre; Ornadas com madeira envernizada. Algo que se via somente em filmes antigos – ou se imaginava em livros da Agatha Christie. –. Combinava de forma precisa com o estilo excêntrico de M. del. V.
As belezas da paisagem indiana passam como que num filme pela pequena janela entreaberta de minha cabine. Mas não devo me distrair. É claro que meu obstinado amigo não me pôs aqui para eu acalmar meus ânimos e gozar de tal passeio cultural. Ele quer algo de mim, ou algo deste vagão. Evidentemente ele passou por aqui, logo se dá a acreditar que algo por aqui – além do exclusivo estilo – teria sua assinatura presencial.
Seria algo de peculiar e interessante, ou seria algo de cotidiano? A o que eu deveria focar a minha atenção? Não sei se sou um péssimo observador, ou se as maluquices de meu amigo são mais preocupantes do que eu imaginava. Pois pelo pouco que eu pude observar, não me vinha nenhuma constatação deveras importante. Assentos de couro, janelas simples e fracas, bagageiro de tamanho comum, assoalho amadeirado, extintores em baixo dos assentos... Nada fora do comum. Tenho de expandir minha área de observação. Definitivamente minha cabine não presta para minhas futuras deduções.
No corredor principal ainda não garanto muitas informações. Quase nenhum movimento de pessoas durante a viagem. À Direita, a saída para os vagões mais econômicos. À Esquerda, a fileira de cabines, terminando no lavabo e em uma pequena sacada fora do vagão, local designado aos fumantes.
Alguém bafora sua fumaça lá fora, de modo que ao me aproximar, pude sentir o cheiro do funesto cigarro. Mas estou me distraindo novamente... Assim que me aproximei, meu objetivo me apareceu de forma clara e óbvia. Uma das cabines tinha como adereços as famosas faixas policiais amarelas coladas na porta, de modo a proibia a entrada, senão para as autoridades. ­– Não é preciso entender punjabi para saber o que aquelas tiras de plástico significavam –. Ali era o centro de tudo o que eu precisava para me inteirar da história.
O homem, que antes se deleitava com seu cigarro, agora me surpreende. Dirigiu a mim palavras que não eu pude compreender. Provavelmente ouviu os meus passos.
– Desculpe, não falo punjabi. – Respondi em inglês.
– Posso ajudá-lo? – Disse ele, na mesma moeda.
– Ah sim! Eu estava à procura do lavabo. – Eu rio discretamente.
– Continue andando, pare antes de chegar na sacada. – Ele aponta, olhando-me com impaciência.
Ele era magro e quase da minha altura. Pela vestimenta, notava-se que não era exatamente da polícia, mas sim talvez um funcionário do trem que ficou responsável por não deixar os civis entrarem na cabine com faixas.
Agradeci, perguntando depois o porquê das faixas na porta, como que não escondendo minha curiosidade, mas disfarçando meu interesse. Esperava sinceramente com todas as minhas faculdades otimistas não ouvir a resposta temida.
– Há poucos dias atrás uma mulher foi assassinada aí dentro. – Disse ele, cedendo à minha pergunta, mencionando nada mais do que isso. Talvez o bom homem também estivesse entediado.
A resposta me foi infeliz. Terei eu de defender um assassino? Mas, me intriga um detalhe sutil, que se não fosse pela inquietação não seria nunca notado.
– Porque não fecharam a porta da cabine rodando a tranca? Seria mais eficaz ao evitar que alguém entre.
– Meu senhor a tranca se encontra somente no lado de dentro da cabine. Isso valoriza a privacidade e a segurança dos passageiros.
– Mas não acabou de dizer que alguém foi assassinado aí dentro?
– A moça estava sozinha quando morreu, senhor. Trancou-se e morreu! Agora, você não estava indo para o lavabo?
Acho que esse era o máximo de informação que eu poderia arrancar do funcionário. Continuei para o lavabo, rodei a tranca e pus-me a pensar. De fato, era assustador que M. del V. possa estar envolvido em um assassinato. – Por céus, espero que não seja ele mesmo o próprio assassino! –. Sinto-me mal. A ansiedade chega de forma mansa e arrebata a minha razão. – Parece-me virtualmente irônico alguém ser assassinado estando trancado em uma caixa, onde somente ela poderia se machucar, o que denominaria o caso com suicídio e não assassinato. Não restando ninguém a quem acusar, senão a própria vítima. Terá sido meu amigo somente acusado? Ou será ele o próprio malfeitor? Sorte é procurar respostas para minhas questões e achar somente pistas inconclusivas!
Água! Preciso me acalmar. Lavar o rosto. Pelo espelho posso ver os pequenos fios de fumaça ondulando pela janela, vindo novamente da sacada. O guarda saboreia novamente o seu fumo. Mas o que seria isso? Algo cruza a janela. Algo fino a refletir um insignificante segmento de luz, algum fio. Que agora vendo bem, está amarrado no fecho do vidro, segurando algo para fora, balançando ao vento e cortando a fumaça. Seria essa a “assinatura” de meu amigo?! Tenho certeza de que foi ele. Puxo com nervosismo, porém, de forma cuidadosa. Pois, o fio é de tecido fraco. Amarrado com vários nós, lá está uma ordinária chave de metal, dessas que se tranca portas de varandas e casas suburbanas; Leve, como qualquer outra chave. Nela, pequenos números se destacam em vermelho: Três, nove, nove; Trezentos e noventa e nove. Guardei-a entre as páginas de meu livreto pessoal, passei-lhe o elástico nas bordas e por fim deixei seguro no bolso de meu paletó. Não há deduções a serem feitas sobre a chave, logo, é inútil gastar suor com isso agora – por enquanto –. Mas sei que este é um dos feitos dele.
O sentimento de produtividade é um dos sentimentos mais sublimes que existem. Com cinco passos precisos – e largos – eu cruzei aquele corredor de volta para minha cabina, sentindo-me triunfante. Sentindo-me jovem!
Fazendo as perguntas certas eu já sabia em qual estação descer a fim de chegar na tal delegacia. Sendo assim, passado algum tempo, finalmente cheguei ao meu destino. Preocupado sim, mas com um sorriso no canto da boca que entregava o meu feito anterior, sem de fato expô-lo.
Nada tenho a evidenciar sobre a delegacia. Era comum, como qualquer construção governamental de concreto, com grandes números na porta e algumas viaturas a serem vistas da rua. Dentro, por outro lado, é calmo. Não havia filas, nem pessoas a esperar, nem sequer havia senha para retirar. Estava lá somente eu e um oficial da recepção, que me encarava com veemência. Talvez pensasse que eu estava perdido. E de fato eu estava. O homem estava vestido com uma farda bege e um turbante de mesma cor que lhe cobria a cabeça. Suas roupas destacavam a seriedade que ele tinha com relação ao seu trabalho e estado. Além de portar outra peça de barba invejável. Outro, que também me pergunta algo em palavras que não entendo.
– Inglês? – Perguntei.
Eis que então o homem cerra os olhos como que entediado e entra em uma sala atrás dele. Logo depois, da sala saem ele e mais um homem de terno. Gravata preta, rosto liso e olhos precisos.
– Posso ajudá-lo? – Perguntou em inglês o homem de social.
– Ah, sim. Eu vim aqui para representar um homem de nacionalidade brasileira, seu nome é M... Ele foi preso há cerca de três dias, se não me engano. Meu nome é...
– Hm, sim. Siga-me, por favor. – Disse ele, interrompendo minha apresentação. – Meu nome é Abhay Dhaval, sou o inspetor chefe responsável pela prisão de seu cliente. Antes que possa vê-lo, explicarei as condições que me levaram a crer e executar a devida prisão. – Prestei o máximo de atenção, curioso para averiguar as acusações. Ele continuou enquanto andávamos. – Há seis dias uma mulher chamada Beatrice Aileen foi encontrada morta às 21h20 no último vagão do trem municipal que cruza Punjab.  Ela pagou pela primeira classe, tendo direito às cabinas reservadas. A senhorita Aileen era uma violinista de renome, famosa por fazer apresentações solo ou em dueto com seu marido Joseph Simon Aileen, que também é violinista. Dito isso, ela vinha para Punjab somente e exclusivamente para sua apresentação. Onde se juntaria ao seu marido, hospedando-se no hotel Mahara. A causa de sua morte, ao que tudo indica, foi asfixia. Porém, as circunstâncias de causa da asfixia em si ainda permanecem um mistério. Visto que não houve relato de escape de gás e a janela de sua cabina se encontrava aberta quando seu corpo foi achado.  Ao interrogar cerca de quinhentas testemunhas (passageiros e operários do trem), nenhuma delas notou algo de anormal ou de alguém na companhia da senhorita. De acordo com todas as informações reunidas, ela viajava sozinha e nenhuma vez sequer resolveu sair da cabina, trancando-se logo ao entrar. Primeiramente supusemos que se tratasse de suicídio, visto que ela havia rodado a tranca de seu cômodo, não havendo possibilidade de alguém de fora entrar. Tendo em mente que as cabines só podem ser trancadas por dentro.
– Entendo, e onde meu cliente se encaixa nessa história? – Pontuei, tentando demonstrar calma.
– Escute, que já lhe direi. – Prosseguiu. – Até aí, tudo o que nós podíamos presumir era a ideia de suicídio, como eu já havia lhe dito. Porém, isso mudou com um acontecimento ocorrido um dia depois da morte da senhorita violinista. Às exatas 23h, um de nossos policiais que estava cuidando da cena do crime foi assassinado a sangue frio. Ele teve sua garganta cortada com uma faca que ao que parece é semelhante a este modelo. – Inspetor Dhaval fez questão de mostrar a foto de uma faca a que chamam de “butterfly”, sendo ela um tipo de lamina retrátil. – O motivo de tamanha agressividade, acredito eu, seria de recuperar um dos itens da cena do crime que fizemos questão de listar pelo seu grande valor monetário. O violino pertencia a vítima, e foi o único item que viemos a dar falta depois da morte de nosso agente. Logo que o perdemos fizemos questão de pesquisar o modelo do violino. Descobrimos então que se tratava de um violino do modelo “stradivarius”, tendo um valor consideravelmente notável, tanto culturalmente quanto monetariamente. Sendo assim, pudemos averiguar as circunstâncias do caso da Srta. Aileen e concluir que ela também fora assassinada, acreditando que a motivação dos dois ocorridos estaria relacionada ao próprio violino. Com um pouco de sorte ao nosso favor um dos faxineiros do trem, que trabalhava na mesma noite que o policial abatido, vivenciou a infeliz cena. Porém, infelizmente não pode ver o rosto do criminoso. Pois, estava coberto por um capuz. Ainda sim, a nossa testemunha nos ajudou a criar um perfil baseado na altura e porte do criminoso em questão, diminuindo o leque de numerosos perfis incorretos.
– Tudo bem, mas...
– Por favor, deixe-me contar os pormenores da história até o final. – Interrompeu-me ele, fazendo-me sentar e ouvir.
– Concluindo. O assassino voltou à cena do crime uma vez, logo, tínhamos a obrigação moral de considerar que ele poderia aparecer no local novamente. Atribuímos então, cinco homens para guardar (em uma possível tocaia) o último vagão do trem. Dito isso, três dias atrás - às 14h15 - fomos surpreendidos com seu cliente bisbilhotando a cabine da Srta. Aileen. Tendo em mente o evento anterior, meus homens chamaram-lhe a atenção. Porém, inusitadamente, o senhor M... correu das autoridades, trancando-se no lavabo. Evidentemente o prendemos, e ao ser questionado do porque estava ali, ele optou por não falar uma palavra sequer. Trazendo-o para a nossa delegacia, nós tiramos suas medidas. E, a meu ver, é muita coincidência elas baterem com as medidas que temos do assassino. Depois disso, foi revisto que um dos testemunhos do trem fora o dele, provando o fato de ele ter estado no mesmo trem que a primeira vítima – a violinista.
– O senhor conseguiu as conclusões e provas necessárias para evidenciar essa acusação de forma acertada? – Indaguei.
– O método do assassinato ainda nos é vago. Mas a presença e a falta de cooperação do senhor M. já nos é suficiente para inferir que ele seja de fato o culpado.
Enfim já informado de boa parte da história agora eu poderia pensar mais claramente em como argumentar contra as acusações.
– Ele está aqui dentro, na sala de interrogatório. Aqui você pode conversar abertamente com ele, as câmeras estão desligadas e não há como ouvi-los.
Respirei fundo, rodei a maçaneta e finalmente abri a porta, preparando-me finalmente para rever M. del V.
– Meu caro D.! Há quanto tempo, meu amigo?! Como foi a sua viagem até aqui?
Lá estava ele, sentado. Na minha frente, uma mesa, meu amigo e não mais que uma parede. Você se lembra daquele sorriso no canto de minha boca? Pois é, estava estampado no meu rosto, dizendo com grandes entrelinhas: “Sim, eu achei a sua chave.”. Porém, nenhuma palavra foi dita. Ainda sim, ele sabia que eu a tinha só por reparar em meu sorriso confiante, respondendo a mim com outro sorriso. Acho que ele queria rir...
Quem eu via naquele momento? Não parecia mais ser o meu amigo de muito tempo atrás. Mas sim outro homem. Deveras o contrário do que eu tinha me acostumado. Suas roupas eram simples e tinha um aspecto um pouco sujo. Sua curta barba estava por fazer, não o ajudando no aspecto visual. Seus cabelos eram negros, e ondulavam mais do que eu me lembrava. Porém, os olhos, esses sim eram iguais àqueles que eu um dia aprendi muito bem a decifrar.
– Foi... Promissora. – Respondi.
– Ah sim! – Disse ele com extrema animação. – Eu lhe abraçaria se me fosse possível. – Mostrou-me suas mãos algemadas e tornou a ficar sério novamente. – Bom, deixemos essa conversa para depois. Você obviamente já ouviu a história pela visão do interessantíssimo inspetor Dhaval não é mesmo? Não, nem precisa me responder. Ele adora relatar seus fatos e deduções, mesmo que elas estejam quase sempre erradas e se penduriquem debaixo de seu nariz enxerido. Aliás, que horas são?
Finalmente pude sentir a companhia dele novamente. Aquele sentimento nostálgico se apega a mim. Ainda mais ele, que sempre termina suas frases com deixas que fazem qualquer um questionar sua sanidade. Por que um homem acusado de assassinato, quase estando preso pelo dito fato, me pergunta as horas com tanta naturalidade? Pois bem, que comece o excelente jogo de mal gosto que você, M. del V. – benquisto meu – me ensinara a apreciar.
Olhei para meu relógio. – 13h46... Por quê? – Não seria eu mesmo se não lhe perguntasse.
– Hm. Não podemos perder mais tempo! Dhaval já fez o favor de nos atrasar com sua enrolação.
– Mas ele estava me relatando o seu caso! Sabe? Eu ainda sou o seu advogado...
– É eu sei. Mas ele o fez de forma a nos atrasar. Suas explicações deveriam ter exercitado melhor a sua imaginação. Um pouco da sua curiosidade nos arranjaria mais tempo. – Deu-se a segurar um riso.
Respirei fundo.  – Mas homem, para onde tem que ir?
– Para onde iremos? Isso é para depois, mas antes vamos resolver logo esse inferno de assunto judicial. Diga ao inspetor Dhaval que já estamos prontos.
– Prontos para quê?! – As perguntas estão começando a sair naturalmente de minha boca.
– Só diga isso. Explicarei quando estivermos a caminho do tribunal.
Por céus! Ele está pior do que antes!
Relutante, eu me direciono a porta, preparando-me psicologicamente para avisar o inspetor e dar rumo ao plano de meu amigo. Se é que ele tem um.
– Senhor inspetor, já estamos prontos! – Falou de repente M. del V.
O inspetor, como um fantasma, aparece pitorescamente na porta. Demonstrava certa surpresa – Ah! Então ele fala?! – Comentou Dhaval.
– Categoricamente, sim. – Comentei. – Mas é certo de que já estamos prontos. – Afirmei eu, esperando logo que o inspetor perguntasse “para que”, mas...
– Ótimo! Quero acabar logo com esse caso, visto que tenho certeza de tê-lo resolvido.
Ele não o fez, confirmando involuntariamente que eu era o único naquela sala que estava perdido.
M. puxou o ar em seus pulmões para fazer seu comentário maldoso sobre Dhaval, mas achou em seu caminho os meus olhos que expressaram um grande: “Não faça isso”; desistindo ele de sua fala sarcástica.
– Vou preparar alguns papéis para vocês assinarem, fiquem aqui enquanto isso. – Deixou-nos, porém não sozinhos. O policial de antes agora se põe em guarda em frente a sala de interrogações.
– Para o quê exatamente estamos preparados? – Perguntei ao M.
– As constatações de Dhaval são tão pífias que não há nem como montar um caso real com elas. Nenhum juiz que se respeite irá gastar tempo com essas acusações quase infundadas. Logo, é preciso que ambos os lados argumentem contra a mesa de agentes do estado para que averiguem a situação, e resolvam de vez o impasse. Não sei ao certo se aqui se segue a mesma lógica, mas é provável que algum tipo de pré-julgamento seja a melhor maneira de lidar com uma situação dessas. – Sussurrou M.
Quando se pensa que a situação não tem como ficar mais absurda, a graça da boa sorte sempre nos mostra o dedo. Nossa próxima conversa se deu por sussurros, beirando ao ridículo.
– Você espera que eu o defenda e argumente em seu nome agora?! Não pode estar mais louco! – Se bem que não posso duvidar de sua loucura. – Não tenho como criar do nada um argumento que lhe impeça de ser preso. Eu não tive acesso a evidência alguma! Não tem como eu argumentar sem ao menos apresentar alguma prova que lhe sirva de álibi! Além do quê, você espera que eu o livre disso somente com a minha versão rasteira dos fatos?
– D., ao que tudo me parece, você e eu não temos escolha. Não podemos perder tempo...
– Tempo? Que diabos! Tire isso da sua cabeça! – Nesse momento me dei conta que levantei um pouco a voz.
Enfim o inspetor volta. Em suas mãos estão os documentos para serem assinados. Alguns contratos e termos para serem aceitos, burocracia judicial. Ressaltando que, daquele momento em diante, estávamos nós dois sob juramento, correndo o risco de sermos penalizados sob a acusação de perjúrio no caso de mentirmos no tribunal. Além de aceitarmos as acusações que lhes são feitas e aceitar a decisão do júri, mesmo que estes não sejam da primeira vara.
Somos escoltados por mais alguns oficiais da delegacia em direção a uma sala exposta por paredes de vidro. Em alguns anos de carreira nunca cheguei a ver algo sequer parecido. Uma arquibancada circulava a pequena sala de vidro. Dentro dela, algumas poucas mobílias.
 – Acho que ficaremos nessa sala de vidro, enquanto o “júri” nos observa ao redor. Parece que não serão mais do que quatro pessoas a nos julgar. – Disse M. Ainda sem controlar seus comentários inoportunos.
Lá estou eu, aflito e sem saber o que fazer, esperando ingenuamente que o “julgamento” simplesmente não acontecesse.



<< Parte 3 >>

A sessão começa. Todos os personagens da “peça” se colocam em seus respectivos lugares. O réu no centro, o defensor ao seu lado, ambos na “gaiola de vidro”. Os juízes eram compostos por três homens e uma mulher. Via-se de cara que não eram realmente juízes, e sim representantes do interesse do estado. Talvez fossem advogados, como eu. Um dos homens cumpriu a função de datilografar tudo o que é dito em sessão. Por fim, lá estava o inspetor chefe interpretando a parte acusatória, estando uma fileira de cadeiras abaixo dos juízes.
Em razão do estado, as acusações foram estabelecidas e citadas novamente, assim como toda a recapitulação dos acontecimentos. Abhay Dhaval, de forma inquieta e incisiva, defendeu suas deduções e não deixou de compartilhar com a mesa suas próprias convicções sobre a índole do réu. Independente de tudo isso, eu não fazia nada mais do que passar a vez para a mesa, a fim de ganhar o máximo de tempo possível. Ao contrário de M. del V. que não tirava os olhos do relógio na parede, sem perder em nenhum momento a confiança (ou a cara de pau). Prefiro pensar que M. confiava o suficiente nas minhas argumentações. É melhor do que a alternativa. De que talvez todo esse tempo ele tivesse uma resposta na ponta da língua, e não decidira compartilhar comigo por pura criancice. Mas duvido dessa vertente, visto que M. nunca perdia uma oportunidade de usar uma carta na manga, especialmente numa hora de necessidade como a que nos encontramos agora.
– Senhor D., o senhor já pode apresentar os argumentos de defesa do réu. – Disse aquele que datilografava.
Em meio ao silêncio eu tinha pouco tempo para que minha falta de palavras fosse considerada como a ausência de provas. Tinha de apresentar algo contra a teoria do inspetor, e tinha de fazê-lo logo. Calma. Pensaremos agora nas possíveis contra-argumentações evidenciais, as malditas provas factíveis.  Documentos, testemunhas, ou qualquer droga que sirva de álibi. Eu não tinha nada... A não ser...
Olhei para o único documento que me sobrou, atentei o meu olhar e...
– Meus caros senhores representantes do estado, reconheço a boa capacidade lógica do diligente inspetor Dhaval. Porém, devamos voltar à filosofia por um momento, dando espaço às evidências assim que refletirmos sobre o próprio significado desse segmento de eventos. Deixo exposto aqui, um único pensamento que reforça toda a defesa do senhor M. – Nossos olhos se cruzaram.
‘Você está se divertindo não é mesmo? Manipulador de araque.’
Eu prossigo com meu discurso.
– Há um enorme abismo entre o que é possível de ser provado e o que é de fato a verdade. Visto que a verdade não existe! Sim, meus senhores da banca, são vós que manipulais uma ou outra verdade, e não a ocorrência dos fatos. Não pondero minhas palavras ao dizer que, ao mostrar-lhes uma única prova que desmistifique as conclusões feitas pelo inspetor, tudo o que foi dito poderá ser revisto de outro modo, pois formular uma dedução em si já significa modelar a verdade ao bel prazer.
Chego perto da arquibancada pressionando a prova contra o vidro. Os cinco que ali sentavam se entreolharam.
Bom sinal. Ganhei-lhes a atenção.
– Aqui está uma carta que o próprio senhor M. me escrevera avisando-me de sua situação. O conteúdo da carta em si não é importante, mas é importante direcionar a atenção para a marca de carimbo localizada na parte superior direita. Senhores, eu serei breve. Reparem que não há selo na carta. Meu cliente, por algum motivo aleatório, optou por não colocá-lo. Sendo assim, foi preciso pagar a taxa de envio e validar o documento com o carimbo que determina a data e a hora da postagem. É mister dizer senhores que, se investigarem a prova meticulosamente, descobrirão o registro de assinatura de meu cliente no posto em que a carata foi enviada. E poderão notar também que a data e o horário não batem com o segundo crime seguido de roubo do valioso violino.
Será isso mesmo? Terei eu surpreendido o notório M. del V.? E o que é esse sorriso no canto de sua boca, acompanhado de um leve arregalar de olhos?
– Meus caros, seria necessário apontar o fato de que toda a teoria do inspetor se baseia na premissa de raridade do violino? Entendem onde quero chegar?...
– Sim senhor D., nós entendemos a base do seu discurso. Não há necessidade de mais problematizações filosóficas sobre a noção de argumento. – Retrucou a juíza, revirando os olhos de tédio.
Era isso. Eu havia feito o meu melhor com situação que me foi dada. Agora, só nos resta esperar o resultado da peleja.
– Declaramos este caso encerrado. A nosso ver, as acusações feitas pelo inspetor chefe Abhay Dhaval são deveras inconclusas, não havendo peso suficiente para levar isso à corte. Entretanto, levamos em consideração as atitudes suspeitas do réu assim também como a veracidade de seu álibi, havendo a necessidade de uma investigação mais profunda. O réu M. está livre para continuar o seu rumo cotidiano, porém, que fique aqui registrado e sabido que Abhay Dhaval tem todo o direito de investigar pessoalmente as ações do réu se assim desejar, evidentemente de uma forma que não chegue a assediá-lo ou descumprir com seus direitos civis. Sigam seus caminhos com cautela.
Eram exatamente 15h. Não há necessidade de se narrar a saída da delegacia. Meu amigo estava feliz, porém, não manifestava muitas palavras. Para ser sincero, M. del V. emudeceu-se assim que passamos pelo estacionamento do distrito. Estava a pensar em alguma coisa. E ao que pareceu, o pensamento requereu tanto de sua concentração que o impediu de prestar atenção às outras coisas, até mesmo em nossa conversa. A única coisa que ele havia me dito era “Vamos, estamos sem tempo!”, e se dispôs a andar rapidamente, logo em seguida a pegar um táxi. Ao dizer seu endereço ao motorista ele disse algo em Punjabi. A única coisa que eu pude compreender em sua frase era a palavra “Mahara”, seguida de “Ludiana”. Se eu estivesse certo, por que diabo nós estaríamos indo para o hotel Mahara? Estaria ele hospedado lá também? Se sim, isso seria mais uma justificativa para Dhaval acusá-lo...
Demoramos cerca de duas horas para chegar ao nosso destino. O hotel Mahara era um edifício alto e muito bonito, localizado numa área bem movimentada da cidade, que me pareceu deveras cara também. Sua entrada era um corredor coberto por uma lona longa cor vinho, que se assemelhava as passarelas de hotel “Hollywoodianas”. Para falar a verdade, parecia longa demais. Dos lados podiam-se ver duas fileiras paralelas de coqueiros, deixando o lugar com um ar pseudo-caribenho. M. del V. desceu do carro, andou rapidamente em direção à recepção, pegou um dos guardanapos que estavam por ali e se pôs a escrever algo com uma caneta que estava em seu bolso. Olhando de canto de olho, pude ver que o que ele escrevia era algum tipo de poema. – Mas o que deu nesse homem? Ter pressa em escrever um poema... E ainda no hotel Mahara? – Terminando de escrever, ele falou algumas palavras em Punjabi com o recepcionista do hotel. Falhando miseravelmente, ele voltou a falar a língua inglesa:
– Olá, boa tarde. Eu tenho um conhecido que está hospedado no quarto 399... –
– Você quer que eu avise que o senhor está aqui? – Disse o recepcionista, interrompendo meu amigo.
– Não, de forma alguma! Eu estou com o tempo apertado. Só preciso que lhe seja entregue este bilhete. Seu nome é Joseph Simon.
O funcionário do hotel leu o que estava no guardanapo, fez uma careta desentendida e concordou com meu amigo. M. del V. agradeceu e então voltou para o táxi. Aliás, eu não tinha reparado, mas o motorista de táxi ficara nos esperando. O que gerou na minha cabeça a seguinte pergunta: em que momento M. del V. disse para o motorista nos esperar? De volta ao táxi, agora com destino à Carter St., número 707.
Presumo que estejamos indo finalmente a morada de meu amigo. Nesse ponto da viagem eu já havia desistido de questionar suas motivações. Alguma hora ele me atualizaria de seus planos futuros.
[17h23].  707, Carter St. – que célebre endereço –. Pode-se dizer que a primeira impressão que tive do ambiente da morada não podia combinar mais com o caráter desprestigiado de seus moradores (incluindo o próprio M. del V.). Tratava-se de uma pequena pensão de vermelhidão opaca, destacada pela velhice e por detalhes que talvez fossem comuns nos anos vinte. A morada era quase que escondida. Encontrava-se em uma esquina, entre duas ruas, em um pitoresco “L”. Tinha quase dois endereços. Chegando à porta, M. del V. tirou de seu bolso uma chave antiga – comum pela ausência de “dentes”– e girou a fechadura velha. O lugar se divide em: hall, escadas e corredores estreitos, e quartos numerados. No hall, a presença de um estalajadeiro. Um velho glutão de camisa pobremente abotoada. Ao se aproximar dele M. disse algo na língua comum. O homem respirou fundo, grunhindo ligeiramente. Levantou-se, abriu um armário atrás do balcão e pegou uma chave. Nela, um pequeno retrato que servia de chaveiro. Ironicamente, o retrato de Gandhi.  M. agradeceu em inglês e me guiou pelo local. Não subimos as escadas. Passamos por um corredor de portas onde algumas mulheres (muitas delas, seminuas) cumprimentaram com olhares sedutores o meu caro amigo. Ele disse algo em punjabi e continuou seu trajeto, estampando um sorriso cafajeste nada discreto no rosto. – E foi nesse momento que percebi que o lugar também era um prostíbulo noturno –. Chegamos a uma porta sem números e adentramos finalmente na morada do notório “M. de Vonchez”. Em algumas paredes encontravam-se dois ou mais papéis atarraxados. Alguns recortes de jornais, fotos e imagens – sem nenhum significado óbvio –, anotações e até páginas de livros aleatórios. A maioria dos papéis estavam entrelaçados por barbantes azuis, como em uma teia – raros alguns outros fios vermelhos.
– Ah, finalmente em meus aposentos! – Disse ele, expressando seu cansaço ao acomodar-se no sofá surrado. – Agora sim! Venha cá e me dê um cumprimento decente! –
– O tempo é testemunha, não é mesmo?! – Respondi a brincadeira.
– Absolutamente... Mas antes de qualquer coisa, parabéns pela fenomenal prosa que apresentou hoje na delegacia. Manejou a situação com extraordinária convicção. Tinha certeza de que sua mente brilhante se destacaria, meu amigo. Estava só esperando as faíscas acenderem essa sua fornalha de máquina! Gostaria de um vinho? – Disse ele, dirigindo-se à geladeira. Eu neguei com a cabeça.
Trazendo sua garrafa de vinho ele pôs em prática os seus goles. Com isso notava-se, aliás, que várias outras garrafas iguais àquela se encontravam caídas em cantos do apartamento. Teria M. del V. um problema? Não devo me apegar tanto a essa pergunta quanto gostaria. Afinal, eu tinha muitas outras a serem respondidas.
Meu amigo sentou-se vagarosamente em sua poltrona desgastada e goleou seu vinho barato. Goles longos, como se fosse um beduíno retornado do deserto. Acomodado em sua embriaguez ele volta sua atenção para mim.
– Para quem pensa mais rápido do que articula, é preciso primeiramente retardar a mente. Assim posso explicar passo a passo todos os detalhes. – Acrescentou, mudando seu humor da água para o vinho. Era incrível vê-lo variar do desconexo caótico ao compenetrado de olhos perspicazes.
A ponta de seu polegar percorria várias vezes as suas sobrancelhas. Como que tentando se achar em sua história, procurando devidamente um começo, ou uma ponta de narrativa para se explicar. Me foi até anedótico vê-lo se perder em suas próprias maracutaias. Até que finalmente houve um algo a ser dito:
– Ah, sim! Nada melhor para representar o passar dos eventos do que o ponto de vista alheio! Primeiro, tenho que saber suas concepções dos fatos. Para, enfim, poder elucidá-los antes de prover novas informações que encaraminholem a sua cabeça.
Reclinou-se. E, tornando novamente a golear, disse:
– É melhor que investigue meu escritório. Tire suas próprias conclusões sobre as peças que lá estão. Tenho certeza que depois disso conseguiremos montar esse quebra-cabeça. – Ele fitou novamente a minha expressão irritadiça, e comentou mais ainda: – Ou seja, preciso primeiro das suas peças, não é verdade? –  Sorriu de forma sutil.
Neste momento, uma leve preguiça, ou inércia, tomou conta de meu espírito já insatisfeito. Eu estava curioso por respostas, mas me aborrecia pensar que tais portas, quando abertas, me proporcionariam somente mais perguntas.
Por fim, aceitei um gole de seu vinho. Precisava de incentivo.
Me direcionei então para o tal “escritório” – que ambos sabemos ser seu dormitório. – Abri caminho por entre os livros e peças pitorescas espalhadas pelo chão: gravatas finas, sapatos gastos, garrafas vazias e até o que eu me surpreendi achar ser (e sabia que era) uma lâmina vítrea de microscópio.
Santuário da paranoia. Essa era a definição que tive quando entrei em seus aposentos. Centenas de recortes de jornal fixados nas paredes – uns mais desconexos que outros –, com fios que se espalhavam pelos papéis como teias, emaranhadas pelo quarto inteiro. Mas apesar de toda essa excentricidade, era nítido que o cômodo inteiro denotava certa organização. Destacando como alvo principal quatro folhas de papel atarraxadas paralelamente na parede, na altura dos olhos. Seria então o principal alvo de atenção. Qualquer um que se posicionar no centro do quarto seria guiado quase que naturalmente para as folhas.
Sim, tudo era estranho. Mas ainda assim, me remetia às memórias que tenho de M. Esse é um comportamento bem semelhante ao do passado, mas incrivelmente mais complexo e exacerbado. Depois que li o conteúdo das folhas eu queria não ter entendido a relevância da situação. Questionei imediatamente a morbidez tamanha que a história de M. teria.
Aquelas eram cartas – escritas à mão –, cada uma tendo caligrafia diferente da outra. Estas confessavam assassínios meticulosamente detalhados. Estavam escritas em português. Presumo que M. as trouxera consigo de sua viajem, pois notava-se nuances da pronúncia portuguesa. Não irei detalhar o conteúdo explícito e perturbador das cartas, pois meu estômago quase não me permitiu lê-las. Apesar disso, algo era de fato intrigante sobre sua assinatura poética e de certa forma cheia de um “determinismo catastrófico”. As tais tratavam as mortes e suas motivações macabras como que sendo moralmente despóticas, justificando (sob o olhar dos autores) as supostas ações dos eventos. Entre elas, além dessas semelhanças, podia-se ler no final de cada uma, de forma bem notória, as seguintes frases:



“Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, [tenho em mim todos os sonhos do mundo. [...]”


O que para minha pobre compreensão e experiência poética me faziam um completo ignorante. Logo, estas são minhas únicas premissas, sendo elas o suficiente para interpretá-las e desenvolver uma teoria. Se tais atos nefários citados nas cartas forem verdadeiros, estes seriam trabalho de várias pessoas, com uma mesma motivação, ou até mesmo constituintes de um grupo seleto. O que, para mim, aponta para o que talvez seja uma organização criminosa, que se faz passar uma mensagem. Qual? Eu não sei dizer.
Apesar de assustador e instigante, não me cabia a tentação de questionar a relação disso com os eventos agora ocorridos.
Em um breve vacilo – causado talvez pela exaustão daquela leitura mórbida – me vi pensando no comportamento atrevido de meu amigo. Ele com certeza era uma pessoa completamente impulsiva, beirando até a um comportamento autodestrutivo. Mas, levando em conta o seu plano até agora, tenho certeza que enviar uma carta para mim, tendo certeza de que eu viria, é algo muito extraordinário para se admitir. Visto que, um pensamento assim viria somente de uma pessoa fanaticamente esperançosa, beirando também ao delírio. Não. M. é, ao que se diz, uma pessoa moralmente contrária à esperança. Sua filosofia, pelo que eu me lembre, e sei muito bem, é céptica e metódica, mesmo que ele alegue inúmera e concisamente que vive perfeitamente em seu mundinho de caos rotineiro. Apesar de tudo, de caótico, M. só tem a cabeça, de resto, tenho certeza que sua vida se baseia nos mesmo padrões mundanos que nós, reles mortais, teimamos em ter. E é referente a esse comportamento próprio e metódico que ele consegue deduzir e manipular os de outrem.
Estou mais do que certo ao pensar que M. não mandou sua saudosa carta somente para este que até hoje lhe chama de amigo. – No caso, caro leitor, sendo estupidamente eu. – É de dar mal gosto na língua, pensar que outras pessoas, a quem eu talvez possa conhecer, também receberam em suas casas a mesma carta endereçada exclusivamente a elas. Visto que, a advocacia é uma profissão comum àqueles que quando jovem pretendem seguir os valores morais da autossuficiência, empregadas pela nossa sociedade contemporânea. Tais valores que M. tanto negligência, com sua busca pelo contentamento filosófico – ou sei lá mais o que esse lunático procura –. É fácil deduzir que M. enviou um número de cartas equivalente ao número de seus conhecidos, sabendo que uma parcela deles – só eu, no caso – atenderia a sua súplica imoral. Essa conclusão me é amarga. De revirar a face com rugas de raiva e desgosto – como de quem chupa um limão e sua acidez lhe judia as têmporas –. Em minha língua, somente o desgosto.  Mas ainda que seu comportamento manipulador seja de tamanha canalhice, sua inteligente solução é, de fato, algo a se parabenizar. Seu pensamento funcionou como uma aposta. Onde as chances de sucesso são equivalentes à quantidade de cavalos a serem apostados – se apostar em todos os cavalos da corrida, a vitória é óbvia. –



<< Parte 4 >>

Ao voltar para sala, me deparo com meu amigo já em seu estado mais-do-que-ébrio, lendo com muito empenho um livro de capa escrita “Organic Chemistry”. Lembro-me bem que, desde a época do colégio, M. ironicamente nunca fora um homem de exatas. Ele preferia a ampla variedade de repostas e interpretações do que uma simples verdade matemática.  – Talvez fosse de sua índole pessoal querer que todas respostas fossem mais perguntas. –. Tendo isso em mente, M. só demonstrava interesse por tais áreas quando essas lhe fossem servir de ferramenta para entender um fenômeno de cunho mundano; nesse caso, algo que fosse servir de premissa para a conclusão dos eventos aqui seguidos – que aliás ainda não me parecem ter explicação. Agora, era comum que meu amigo tivesse variados livros de filosofia e poesia espalhados pelo seu cômodo. Via-se inclusive, como exemplo, uma cópia surrada das “Prosas de Fernando Pessoa” em sua mesa de centro. – Parece que um pouco de Portugal se enraizou na alma de meu excentricíssimo amigo. –.
Sem mais delongas sentei-me numa outra poltrona da sala e comentei algumas das minhas inflexões do quebra-cabeças:

{fato I - os crimes;
Uma ‘série’ de assassinatos friamente premeditados.}

{fato II - as evidências;
Cartas (escritas com caneta tinteiro), que descrevem metodicamente cada assassinato (exceto o da violinista), conectadas por um poema em comum. Uma assinatura peculiar.
Caligrafias diferentes de uma carta para outra, indicando a participação de mais de um malfeitor, logo, múltiplos assassinos; evidenciando, porém, uma metodologia comum, a ligação entre os criminosos. Provavelmente um grupo seleto, de uma mesma moralidade fundamental.
O dialeto utilizado nas cartas é evidentemente o Português. Vê-se, porém, que, a gramática tem uma variante diferente, claramente vista na grafia do português europeu, tendo seguimento de um terceiro fato...}

{fato III – o local;
[Portugal]; País de escolha daquele a quem chamam de ‘M. del Vonchez’. Pode-se
denotar o grupo criminoso como morador da província portuguesa, tal como o já
citado M..}


– Vá em frente, adiante-se com seu show exibicionista –. Comentei, provocando M.
“Sobre o conteúdo das cartas, há pequenos detalhes que me chamaram a atenção. Evidentemente, mudarei a ordem de minhas reflexões para que seja fácil o seu entendimento. Primeiro, como todo texto a ser analisado, temos de recorrer à sua narrativa. Ao observarmos linguisticamente a produção de seu texto, podemos concluir que não são ‘causadores’ os culpados das tais mortes e sim um único e solo ‘causador’. Ao término de todas as cartas, em seu post scriptum, temos o poema de Fernando Pessoa {...}”
“Ignorando – a priori – o fato das variadas caligrafias, concordamos ao dizer que a colocação do sujeito na escolha de Fernando Pessoa se refere a somente uma pessoa, ou um eu lírico, se assim preferir. Porém, não podemos julgar a mentalidade do assassino por um poema que não seja de sua própria autoria. Entretanto, podemos tirar conclusões de sua deliberada escolha por tal texto. Por que um grupo seleto escolheria um texto que se refere a si mesmo – seu eu lírico – como sendo primeira pessoa do singular? É daí que busco em minhas concepções, que, sob tal assunto, trata-se de um só malfeitor. O que me leva a pensar, como teria um homem várias caligrafias? Se seguirmos pelo óbvio raciocínio isso seria impossível, de fato. E isso o é, pois não fora o malfeitor que escrevera as cartas, concluo eu. Há de haver outra linha de pensamento. Excluo primeiro a possibilidade – já passada – de haver outros indivíduos causadores de tais atrocidades. Sendo assim, tenho uma elucidação perturbadora. Ao procurar por suas vítimas pude, sob análise criteriosa, observar que as caligrafias em questão combinavam com – por surpresa minha – as das próprias vítimas. Conclusão essa que tive após surrupiar certas anotações pessoais que variavam de diários pessoais a anotações de conteúdo acadêmico. ”
“Tenho certeza que as vítimas não mais utilizarão suas anotações. Além de quê, pode-se imaginar a morbidez de ser forçado a escrever por detalhes um prenúncio do método utilizado em sua própria morte. Podemos tirar proveito de tal informação e presumir também que nosso objeto de estudo (no caso, o assassino) tem um caráter de cunho cruel e não empático. ”
“Sendo essa análise (na época) um simples exercício de treino para meu processo dedutivo, não vejo porque me aprofundaria numa investigação fora de minha jurisdição. Afinal, não sou, e nem tenho a pretensão de ser, um oficial da lei; visto que teria de respeitar tais leis para poder aplicá-las. Porém, como voto de fé de um recém cidadão português, me dei ao trabalho – e a oportunidade – de escrever uma carta anônima – pois há tempos abandonei minha vida digital – expressando minhas sinceras preocupações e elucubrações sobre o caso. E, como muitas cartas recebidas pelos oficiais investigadores, a minha própria fora ignorada em meio aos tantos trotes e ameaças de falsários. ”
“Agora vejamos o quão intrigante é a morte da senhorita violinista, e qual a ligação que encontrei – e podemos ainda encontrar – com relação ao hipotético (naquele tempo) assassino em série de Portugal. É por conhecimento meu da vítima que posso afirmar que sua vinda para Punjab não se deve ao seu interesse artístico, pois já se faz algum tempo que ela se encontra foragida das luzes prestigiosas do ramo dos palcos musicais. Outro motivo se revela para sua viagem, sendo esse motivo seu próprio marido; situação essa que chamaremos humildemente de ‘visita’... ”
– Espere um pouco... – Interrompi. – Você já conhecia a Srta. Aileen? –
“ De fato passamos uma ou duas semanas conversando em casas de café..., mas como eu dizia...”
– E qual seria a ocasião desses encontros? –
Raramente M. expunha suas inseguranças. Mas naquele momento era evidente o seu desconforto ao comentar sobre suas idas e vindas com a moça ao café.
“Nós nos conhecemos... ou melhor, eu a conheci...”
M. deixou sua garrafa na bancada da cozinha e se pôs em fazer café. Qual o intuito, não sei dizer.
“Passou-se um tempo que comecei a sentir falta de qualquer estímulo social. Em Portugal podia-se dizer que eu vivia quase como um eremita. Digo, havia algumas pessoas em meu círculo social, mas estas não me eram – e não o são – agradáveis. Por conseguinte, eu passei a visitar mais lugares públicos, tais quais bibliotecas, consertos e cafés. Em meu primeiro conserto pude realmente me deleitar com o deslumbrante talento da falecida Aileen. A partir desse ponto tive certeza de que queria conhecê-la, quais seriam minhas intenções também não sei dizer. ”
M. tomou parte de sua xicara de café e se apoiou no balcão para continuar sua história.
“Comecei primeiro observando-a. Pois sabe você que consigo ser muito seleto com quem deixo ou não de conhecer. ”
“Durante quatro dias a observei. Até que decidi realmente me abster de incomodá-la com meu temperamento obcecado. Foi então que pude sentir o peso do constrangimento que eu havia ignorado. Por que a moça desde o primeiro dia sabia que eu a olhava, pois ela também me observava. Ao me abordar com uma simples frase: ‘Sabe que é muito perigoso seguir as pessoas, não? ’. ”
“De resto, foi onde obtive uma carinhosa amizade com ela, e por isso temi por recomeçar o círculo vicioso que me fez partir para Portugal. ”
“Ela era tão curiosa quanto nós. E eu acho que até mais voraz nas suas conjecturas. ”
“Aileen gostava principalmente de mesclar música aos nossos casos. Criando jogos de quem assassinaria Mozart ou quais segredos Bach escondia sob seu leito. Pura ficção, mas com toques de realismo. ”
Como que acordando de um sonho M. del V. retoma seu semblante concentrado.
“Por essa causa, sei um pouco sobre o caráter da moça. Porém, mesmo que tenhamos nos dado bem, posso dizer que, entre muitas outras coisas, ela preferiu omitir informações sobre seu marido. ”
“Afinal, talvez nem ela soubesse de suas próprias intenções para comigo. ”
“Dito o fato, em nosso último encontro ela estava bastante agitada, até consideravelmente inquieta. Não falava muito, e se falava, não chegava a terminar suas frases. Em um sobressalto disse que teria de viajar e que provavelmente nunca mais nos veríamos. ”
“Foi por meio dela que entrei em contato com uma das cartas – um dia antes dela embarcar para cá –, o que me direcionou adiante no caso dos prévios assassinatos. Depois pude me apropriar das outras quando, antes de nos despedirmos, pegamos o mesmo bondinho em Lisboa. Para logo depois seguirmos caminhos diferentes”
– Isso significa que você a seguiu até aqui? E por isso estava no mesmo trem no dia de seu assassinato? –  . Indaguei, expondo minha preocupação.
“De fato eu estava por perto quando soube de sua morte...”
M. fez uma pausa.
“Um dos testemunhos do trem, como você bem sabe, fora o meu. Dizendo pouco sobre meu relacionamento com a falecida. ”
“Cobrando alguns favores pude também vir para Punjab e prosseguir com esse descarrilar de acontecimentos. ” 
“Uma das quatro folhas que você analisou em meu escritório estava sob a posse de Aileen. Eu a consegui no último encontro que citei. Antes de deixar-me só, a moça me pediu para guardar como evidência, no caso dela precisar recorrer à justiça. ”
“É curioso ressaltar que essa carta, que agora está conosco, nunca foi noticiada pelos jornais de Portugal, sendo oficialmente três que foram vistas nas cenas dos crimes. Inclusive, é sensato dizer que a tal última carta apresenta o mesmo modus operandi das outras. Provando sua veracidade. ”
“Não tenho certeza absoluta do como Aileen portava esse documento, porém, posso tentar chegar perto da real explicação. Agora, antes de continuar, preciso perguntar-lhe mais uma coisa. O que sabe sobre assassinos em série? ”
Sinceramente, não sabia o que pensar depois de ouvir o discurso de meu amigo. Não sabia se realmente estava bem, levando em conta o tipo de relação que ele teve com a vítima. Ou então, se estava moralmente, e até mesmo psicologicamente, disposto para continuar com esse caso inenarrável. Sentia-me impotente, sem poder fazer nada, a não ser prosseguir com sua lógica.
– Sei que são pessoas que não demonstram nem um tipo de empatia. Notáveis por sua capacidade de dissimulação e manipulação. Essa categoria de assassino é famosa por sua característica metódica, onde um padrão de comportamento deve ser seguido à risca –  quase religiosamente –, proveniente de uma ansiedade – ou necessidade – latente.  Assassinos em série são pegos por que não conseguem se distanciar de sua compulsão, sendo possível prever seus métodos e passos seguidos. Essa patologia é marcada geralmente também pela necessidade que esses assassinos têm de reaver seu próprio poder acima de outrem, ou a necessidade reprimida de chamar atenção. –
“Precisamente! Ótimas observações meu caro. Acertadas, porém, rasas ainda...”
“É verdade que, assassinos em série são, na maioria das vezes, traídos por sua necessidade de chamar atenção. Porém, esta variável somente se aplica àqueles que foram pegos; Presos definitivamente pela segmentação de um padrão próprio e prolixo. Mas há aqueles além dessa dicotomia – padrão versus compulsão. Nós temos adiante uma gama de bem-sucedidos assassinos que não foram pegos justamente por, não digo controlar, mas manejar a compulsão de forma que ela lhes seja adaptável. Tendo total compreensão da importância de não chamar atenção desnecessária. ”
– Não é muita ousadia levar em conta aqueles assassinos hipotéticos que supostamente não foram pegos? Pois seria como ter um objeto de estudo quase inexistente. Visto que, se não fora pego, não pode ser analisado.
“Há! Mas é aí que está a graça, meu amigo! Precisamente na ousadia! ”
“Pegue por exemplo o fenômeno assim chamado de “buraco negro”. Não se pode determinar sua exata imagem, visto que este consegue sugar até mesmo as mínimas partículas de luz. Mas como nós sabemos de sua existência? Simples e nefasto! O comportamento dele com o meio. Nós só sabemos que o buraco negro existe simplesmente por que podemos analisar como este fenômeno – que é definitivamente invisível a olho nu – interage com o universo ao redor. Nós só temos conhecimento do fenômeno como fenômeno e não como definitivo objeto. É assim na ciência e assim também pode ser na dedução... ”
“Digamos que este nosso assassino seja da categoria que assim tivemos de supor... Se tal assassino tem a questão patológica ao seu dispor podemos constatar que seu comportamento é incomum para sua patologia. Ou seja, que esse malfeitor não pode ser vencido por seus padrões já manifestados academicamente, o que o torna meramente invisível aos olhos dos leitores do estereótipo marginalizado. ”
“Imagine-se – se possível – no lugar de nosso indivíduo/objeto. Você é um homem provavelmente com certo nível de poderio e com uma imagem absoluta e pública – senão particular – à zelar; uma certa camuflagem, uma máscara bem resistente, senão quase irremovível. É de máxima importância que destaquemos a relação do panorama lógico entre “esconder-se” e “ter porquê e o quê esconder’, visto que só é preciso esconder aquilo que necessita ser escondido. Logo, se seu comportamento foge do radar investigativo já estudado, podemos prever que sua persona é algo merecedor de tal soturnez. Retomando. Você é uma pessoa com uma imagem sensata à zelar e com uma voraz linha de raciocínio, beirando a genialidade psicótica. O que faria se seu estado de vida atual fosse ameaçado por uma pessoa próxima? ”
– Bem, se eu fosse um psicopata não teria problemas em matar tal pessoa, não é mesmo? – Comentei.
“Precisamente. Porém, meu amigo, por sua vez você tende a estudar o estereótipo, e não os arredores causais de nosso “buraco negro”. Você está encarando o fundo escuro e não o todo celestial. ”
– Vá direto ao ponto, homem! – Frustrei-me.
“Se fosse matar sua esposa, por exemplo, o que isso tornaria de você em uma investigação?”
– ...o principal suspeito. – Finalmente compreendi.
“Graças! Até que enfim estamos progredindo! ”
“Então? Não vê a dificuldade desse dilema? Assassinar alguém a quem se é muito próximo... Diferente de se causar mal a alguém que não abrange seu círculo social. Daí a facilidade do assassino em série. ”
– Mas se há alguém próximo que lhe ameace seu status de incógnito... deve-se fazer algo a respeito... –
“Esplêndido! Se fosses lidar com tal pessoa, precisaria fazê-lo sem que a dúvida intrometida de outrem caísse sobre suas prévias façanhas anonimamente expostas ”.
­­– As cartas! – Minha voz se levantava.
“Correto. E, tendo como façanhas descobertas, porém incógnitas, as cartas e os assassinatos das vítimas, temos uma necessidade de não se fazer conectar tal padrão com outro futuro que possa tomar referente à “sua esposa”. ”
– Para não descobrirem a conexão de seus crimes anteriores com um futuro crime (que pode lhe expor) há um método diferente a ser utilizado... –
Olhe para mim, estou fisgado pelo anzol tresloucado de um bêbado delusório! Em uma linha de concepções fora de ordem e nexo causal!
– Mas espere... – Considerei.
“Sim, esta é minha explanação acusatória sobre como a Srta. Aileen detinha tal documento e o porquê de sua aflição repentina. Acuso J. Simon Aileen (marido e violinista) de tais crimes medonhos! Acuso também a falecida Beatrice, de possuir uma tamanha e virtuosa esperteza ao suspeitar rapidamente de seu marido. ”
 Depois de tal declaração fiquei ansioso para aceitar o gole do vinho barato que me estava perto. Goleei então, de novo e de novo. Novamente perplexo, não sabia que rumo havia tomado a minha aventura – se é que posso chamá-la disso.
“Nesse caso, é conveniente que a morte de Beatrice seja envolta em mistério, com relação ao método de assassinato. Sendo o horário e a localização do feito um álibi que exclui qualquer relação com o marido. ”
Meu rosto estava quente, se eu já estava ébrio, não podia dizer com certeza. Pois poderia ser o ar que saía de meus pulmões em uníssono com minha mente atônita.
“Não pareça tão pasmo D., assassinatos matrimoniais são recorrentes serem causados pelos próprios cônjuges...”
– Sim, disso eu sei bem. Mas nessas condições... São extraordinárias demais! Quase fantasiosas... – Me era caro acreditar na obra relatada.
– Se o que você diz é factível, tenho certeza que a polícia deveria saber sobre a sua teoria. Deveríamos expor J. Simon Aileen para as autoridades e deixar que eles cuidem de sua prisão!
“Como deveríamos expô-lo, meu caro?! Se por acaso revisar minhas falas, você verá que todas elas têm como base minhas próprias especulações. Que apesar de afiadas, não creditam nenhuma certeza.  Além do comportamento nervoso de uma mulher falecida – e seu testemunho por meio de minhas palavras. Além de quê, devemos nos lembrar do perfil esguio que se acredita ter o nosso alvo acusatório. Tenho certeza que diferente de outros assassinos em série, este é diferente com relação ao intuito de chamar atenção para si mesmo. Ao menor sinal de perigo a presa irá, ou atacar-nos, ou fugir para nós nunca mais achá-la; continuando com seu rastro imperceptível, talvez até com outro método. ”
 Calei-me então. Tendo como guia a minha inquietação, onde vejo meus argumentos encurralados por uma intriga definitivamente inexorável. Parecia-me uma injustiça me sentir sitiado por uma ideia abstrata que era ‘J. Simon’. Uma sombra que pairava sobre minha tez.
– E quanto ao método do assassinato, a arma do crime? – Com tantas coisas para digerir, eu estava num labirinto. Perdido, tentando juntar os caminhos que os fiapos de fios podem me oferecer.
“Tive duas oportunidades de investigar a cabina de ‘Beatrice’, o que com certeza me revelaria a causa de sua mortis. Porém, uma delas, desperdiçada pela minha falta de preocupação momentânea, não pode ser contada como verdadeira tentativa. Afinal, eu estava “junto” dela, no mesmo trem, mas não pensei que seria viável confrontá-la com minha visita inesperada. A segunda vez, onde por pouco tempo que tive, conseguira somente em minha posse a chave, que por rápida reação lhe deixei para que achasse no lavabo do trem. ”
M. goleia em vão sua caneca de café. Nossa conversa havia consumido todo o conteúdo da caneca.
– Essa chave tem alguma relação com a nossa ida ao Hotel Mahara? Ou alguma relação com a arma do crime? – As perguntas saiam de minha boca como que independente de minha vontade. 
“Sua suposição referente ao hotel é de uma precisão surpreendente. E tenho quase certeza que a resposta para essas duas perguntas serão nos entregue amanhã mesmo. Isso, se tudo ocorrer conforme o planejado. ”
– Isso deveria ser uma resposta às minhas perguntas? – Minhas palavras soam como as dele. Isso deveras me preocupa. A loucura pode ser contagiosa ao seu redor.
Meus olhos pesaram.
“Prefiro deixar minhas deduções incompletas para quando o quebra-cabeça estiver para ser finalizado. Perdoe-me, mas até lá terei de ser soturno em minhas ações. Afinal, amanhã teremos um dia bem ocupado. ”
Seria de pouca utilidade narrar o resto de nossa conversa. Me encontrava já embriagado e seriamente exausto para continuar essa prosa angustiante. Dormir era uma realidade perversa que em prol de minha saúde (mental e física) não poderia ser ignorada. – E se me permitir uma confissão caro(a) leitor(a): Não poderia continuar o discurso nem mesmo que eu quisesse. No final, dera eu por derreter aos pés empoeirados daquele sofá em frangalhos. – Posso ter balbuciado algo como um cumprimento de boa noite, e nada mais importante.



<< Parte 5 >>

Já pleno e acordado, por volta das 8h olhei para meu relógio. Sem saber como seria o rumo do meu dia, visto que não havia mais um real motivo para continuar nessa caça às bruxas. Me encontrava no velho sofá de meu amigo, coberto por uma manta indiana, deveras bonita para sua evidente velhice. Não era do feitio de M. ser atencioso, de forma que pouco se sabia de seus valores afetivos, porém, via-me agradecido por M. ter me coberto contra o frio – pois Punjab tinha noites de frio cortante.
 Na sala, o breu, deveras opressivo, que se me permite dizer, situava uma certa “cegueira” ao cômodo. O ar que ali ficava era parado e áspero, dito que sufocaria um alérgico em questão de minutos. Era soberbo tentar explicar o fenômeno que naquele ambiente acontecia.  Mas antes de mais nada, devamos abrir as cortinas e assim também as janelas. Esse cômodo já me cansa com sua aura claustrofóbica.
Em si, é de uma canalhice tremenda as circunstâncias. Me refiro a janela. Ao abrir a cortina, era de se esperar um ou sequer alguns fios de sol, iluminando o que seria meu último cumprimento à Punjab. Não vi janela onde deveria, mas sim um trabalho de colagem minucioso – em papel pardal – em todas as arestas do batente, onde supostamente deveria entrar luz. Obra de quem nós já sabemos ser.
Sentei-me para decifrar esquisitice de trabalho que “protegia” o cômodo dos raios solares. Ao meu ver só podia ser algo posto ali propositalmente, e no final vi que era. Pois, em uma altura considerável estava um pequeno buraco, especificamente um círculo quase perfeito, onde somente um facho denso de luz conseguia atravessar. Denotava um trabalho manual de uma hora, talvez mais.
E de meu amigo não havia sinal, sumira novamente o mal-amado. Era como se ele fosse um fantasma. Se M. del V. não deixasse sua assinatura por onde quer que fosse e em quem quer que conhecesse, eu diria que ele só poderia ser fruto de minha imaginação. – Não que eu tivesse a capacidade imaginativa necessária –. Mas curioso era que, pelo pouco que se podia enxergar, tudo estava diferente em sua morada. Estava limpa! O que me permitia prestar atenção nos detalhes originais do cômodo, nada de muito excêntrico mas digno em seu próprio estilo. Antes que eu pudesse me dar conta, acebei por tropeçar no que eu vi serem malas de médio porte jogadas na sala. Salvo algumas peças de roupas aleatórias jogadas no chão.
O quarto também, já era outro. Todas as linhas de lã sumiram, só o que restou foram os buracos dos alfinetes. O que não seria notado no caso de uma outra pessoa dormir ali. Era de um sentimento estranho estar ali sem a assinatura de meu anfitrião. Fora as janelas tapadas, eu me sentiria um intruso num lugar qualquer. M. del V. se preparou para partir, concluo eu. Parece então que seu “caso” já se desenrolou de acordo com o seu planejado, espero.
Pensar num final para essa empreitada me é estranho. Voltar para casa me é um pensamento acolhedor, mas também inquietante, de modo a me cansar.
Continuando. Ao voltar para a sala, presenciei um fenômeno que antes não percebera por conta da perspectiva. Na parede oposta a janela, havia uma imagem sendo “projetada. Algo que parecia vir de um projetor. Mas não era isso, pois a imagem vinha do pequeno buraco no papel da janela, arremessando seu facho de luz na parede, projetando imagens – de ponta cabeça –. E para a minha surpresa, imagens de lá fora! Nesse tempo exercitei minha memória para lembrar de uma das aulas que tive na presença de M. del V. ainda no ensino médio.
– Câmara escura... – eu disse, falando sozinho.
Tratava-se de um experimento rusticamente copiado – mas bem-sucedido – de um dos primeiros protótipos na invenção da fotografia. Pelo que me recordo era uma invenção de Antêmio de Trales, onde em uma caixa – podendo atingir as dimensões de uma sala – contendo um pequenino orifício em um de seus lados faz com que a luz entre e se projete no lado oposto, copiando a imagem de fora para dentro, só que invertido. Exatamente no meu exemplo atual.
Sinceramente, não sei o que pensar disso, mas posso deduzir uma certa utilidade. M. mesmo que refletindo o presente, mostra também suas raízes no seu passado. Mas de uma forma incrível e produtiva.
Na mesa de centro, algo peculiar e mundano. Uma nota, na letra ilegível que M. tinha desde o colegial.
– Veja, mas não atenda em hipótese alguma. Caso de vida ou morte. – Dizia a nota.
De novo, algo para interpretar.
Pois bem.
Quase atônito me sentei no chão, assistindo ao “filme” que M. queria que eu visse. Talvez fosse o modo mais peculiar de vigia que existisse. Pois sim, penso eu, que dele me é pedido que vigie algo, ou algum evento. – Será mesmo? – Tenho de acreditar nisso. Do contrário, não há utilidade para o bilhete. E devo ficar em silêncio pelo que entendi.
Achei que minha paciência seria mais resiliente depois de tudo o que passei, mas eu me engano. Depois de duas horas encarando uma imagem invertida eu comecei a ficar inquieto. De forma a quase desistir e deixar aquele apartamento, que pelo horário já se encontrava tão quente quanto uma maldita sauna. E para minha infelicidade, parece que toda vez que estou prestes a desistir de toda essa narrativa sherlockiana algo me iça de volta para esse sonho lúcido, proveniente da cabeça de “M.”. Nem que seja para matar a sede ou a fome num bar de esquina. As informações chegam quando eu não necessito delas tanto assim.
Desculpe-me caro(a) leitor(a), realmente me encontro ranzinza novamente, tal qual um velho sem rapadura – eu quis dizer dentadura? Nem sei mais o que digo –. Voltando para o que importa. Eu vi algo. Ou melhor, um alguém. Uma silhueta – de ponta cabeça – agora se aproximava com passos confiantes. Atravessou a rua sem nem sequer olhar para os lados. E lá estava vindo em minha direção, um homem caucasiano – sutilmente avermelhado na testa e nariz, por conta do sol – de cavanhaque grosso e castanho (quase louro), mostrando orgulhosamente sua cabeça raspada – como um gramado recém-aparado. –. Antes que sua silhueta se tornasse um borrão novamente – pois ele se aproximava com rapidez para a janela –, eu pude ver que se vestia com certo garbo; uma camisa branca entreaberta no peito, denotando seu colar com uma pequenina ampulheta servindo-lhe de pingente. Mesmo com esse incomum calor (nessa época) ele trajava um blazer aberto, cor azul escuro, de tecido fino – certamente um design indiano – que combinava com sua calça bege extremamente larga e suas sapatilhas encurvadas nas pontas. Seus braços eram fortes e seu semblante era soturno, porém tenro ao mesmo tempo, um exato paradoxo que criava uma aura de dúvida sobre seu caráter. Talvez a mesma aura que M. passava – em dias melhores.
Logo o homem se aproximou da janela. Sua imagem se dispersou e borrou tudo o que se projetava na parede. Com isso, o quarto se tornou escuro novamente. Tudo o que eu podia fazer era ouvir. O homem parecia se movimentar com cuidado. Talvez eu não fosse o único que observava. A figura ia e vinha. Analisando a janela, o lugar, a “pousada”, como que também está atrás de informação. Juro que – esquecendo-me o que a nota de M. havia me aconselhado a fazer, ou melhor, não fazer – eu quase anunciei a minha presença ao homem do reflexo, mas logo me calei. Era óbvio que o que eu deveria observar era o novo personagem que se apresentava na narrativa.
Sua figura desaparece. Torna-se novamente a figura do mercado indiano a céu aberto, que segue indiferente em sua movimentação rotineira. Logo depois, posso ouvir por de trás da porta uma voz masculina mais do que sutil. O dono da estalagem responde algo em punjabi, para ser respondido novamente com um ‘thank you’. A voz do homem tinha o tom baixo, mas seu timbre era forte.
Por debaixo da porta podiam-se ver tomarem forma as sombras de duas pessoas. Duas pessoas em minha porta. Um, o estalajadeiro. O outro, o homem soturno. Três batidas fortes na porta – dados pelo dono da estalagem –, seguidas de silêncio e mais palavras em punjabi.
Minha cabeça foi inundada por aquele sentimento que se tem quando algo tão rotineiro como falar, ou atender uma porta se torna um martírio por não ser executado de forma rotineira acostumada pelo cérebro. Tal qual não atender um telefone e deixá-lo tocar por um tempo; sendo esse tempo angustiante. Como que deixar algo cair e lentamente observar – sem reação – a trajetória do objeto frágil até o chão. Foi algo assim que me arrebatou no momento. Uma impotência artificial sem propósito aparente. Se eu soubesse a causa de minha recolha, eu poderia aplicar mais empenho a ela. Mas como tudo aqui me era um enigma, eu me sentia como que em uma travessura infantil. Sentindo-me tão bobo quanto uma criança que, sem motivo aparente, toca a campainha de um estranho e começa a correr, consumida por adrenalina, só para descobrir depois que não havia ninguém dentro da casa. Me sentia bobo.




<< Parte 6 >>




Três batidas sutis na porta – dados pelo homem –. Silêncio. Um “excuse me”, com voz baixa.
Sons de passos que vão se afastando lentamente. As sombras se vão. Silêncio seria, se as batidas do meu coração não estivessem completamente audíveis ao ouvido humano. Meu coração se encontrava disparado.
Agora, na imagem refletida, novamente a silhueta do homem. Sua imagem – invertida – que se esvai na multidão.
Se antes, eu me encontrava “prisioneiro” desse apartamento, agora mesmo que eu me via impossibilitado de sair. Pois se saísse, denotaria que estava aqui o tempo todo. Desistido de continuar observando o cotidiano da parede, me apeguei ao sono para esquecer da fome. Era evidente que eu podia ter utilizado melhor o meu tempo, ligando para minha família, por exemplo. Mas eu tinha o pressentimento de que meus dias em Punjab já estavam chegando ao fim.
Era quase noite quando M. del V. deu as caras.
“Vamos, meu amigo. Não temos tempo a perder. O recital começa em cerca de minutos e você nem está devidamente arrumado. Vista sua melhor calça, ‘enforque’ sua melhor gravata e passe sua melhor camisa – não necessariamente nessa ordem –; e pegue também um casaco, está ficando frio. Hoje ouviremos música em um evento que não poderia e nem deveria acontecer. Pelo menos, não onde ele ocorrerá. Isso é o resultado de uma troca de favores do mais difícil calão. O homem por trás disso realmente tem contatos duvidosos, para não dizer familiares. ”
 M. estava com um aspecto tão diferente que, se eu não o conhecesse a fundo – o que me era permitido conhecer –, diria ser outra pessoa. Sua barba não mais desgrenhada, mas sim devidamente aparada e penteada, assim como os cabelos. Seu traje parecia não ser seu. Vestia uma calça indiana preta e larga – com detalhes bastante sutis em dourado –, botas de couro marrom, uma camisa preta – com as mangas dobradas – ‘enforcada’ por uma gravata fina, também preta. Trazendo em mãos um blazer de veludo fino – de cor vinho escuro –, e um sobretudo preto de aparência gasta, mas ainda boa para uso social – com uma manta indiana que pendia de um dos bolsos frontais.
– Ah, e não se esqueça disso... – Disse M., enrolando em sua cabeça o pano que pendia de seu sobretudo, usando-o como um turbante.
Eu não conseguia esconder minha expressão de confusão, camuflada com feições de curiosidade e certo espanto pelo traje de meu amigo.
– E com relação ao bilhete que deixei. Você fez o que eu pedi? – Perguntou M..  – Ou melhor... não o fez, certo? – Acrescentou.
Demorando a responder eu acenei positivamente com a cabeça.
– Perfeito. Prometo que o perigo que lhe fiz passar hoje não será de todo em vão. Claro, isso se eu estiver certo em meus axiomas.
– Perigo? – Murmurei.
Nossa conversa entrou em uma pausa indeterminada, visto que M. del V. já estava começando a me apressar para que eu me vestisse. Mas o que devo vestir? Só o que eu trazia comigo eram algumas roupas de trabalho e outras para dormir, pensadas para uma volta rápida para casa. Meu tempo estava se esgotando. Tinha de voltar para casa, para o aniversário de minha amada filha.
– Para onde vamos? – Tive de perguntar. Aliás, não sei como não perguntei antes.
– Para o templo... – Respondeu “M.”
Antes que eu perguntasse novamente, M. del V. previu minha dúvida.
– Para Harmandir Sahib, o templo dourado de Punjab. Vamos assistir o recital de violino solo de J. Simon Aileen.
Um recital em um templo?...
– E isso é permitido? – Perguntei.
– Não. Mas para hoje, sim. Vamos! Apresse-se.
Sem saber o que vestir, procurei pela roupa mais social que pude achar em minha mala malfeita. Oras! O que eu vestiria num maldito templo? Vesti uma calça social bege, minha camisa branca, um colete cinza que eu usava de vez em quando só por vaidade e minha gravata vinho. De resto, M. del V. me empurrou um par de sapatos sociais pretos de bico abrilhantado e um cachecol indiano marrom – de tecido fino –; insistindo para que eu o enrolasse no pescoço. Por fim, M. tentou me empurrar também um blazer cor marrom caqui que mal me servia, mas desistiu quando me viu vestir minha velha jaqueta de sarja verde-musgo. É óbvio dizer que, aquelas roupas não pertenciam a M. del V., visto que aquele blazer marrom também não lhe servia.
– De onde vêm essas roupas?
– Umas eu herdei de um mentor, outras eu afanei vindo para cá. – Respondeu, quase em tom orgulhoso.
Naquela frase havia tantas coisas a serem questionadas, mas sinceramente, perdendo já o interesse por mistérios, recusei-me perguntar algo sobre. Afinal, eu tinha outra coisa mais importante para me precaver. Pois, se M. del V. estiver certo, nós estamos indo direto para o recital de um assassino de sangue frio. Qual a nossa intenção? Novamente, não sei dizer. Talvez eu esteja me alongando muito em minha estadia aqui. M. tem uma mania muito preocupante com relação à vida. De certa forma, posso dizer que sua índole é marcada por uma melancolia recorrente e um jeito autodestrutivo de continuar sua jornada. Digo isso, pois sei que M. não se importa tanto com o que acontece consigo mesmo, desde que possa manter seu estilo de vida detetivesco, fantasioso, ilusório, delirante, escolha um termo... Ele se supri somente por quebra-cabeças mórbidos e sentimentos intensos. Eu – quando mais jovem –, o vi muitas vezes deixar até mesmo de comer para continuar entretido em seus próprios projetos pessoais. M. é o que eu descreveria como uma alma perdida em um mar conceitual de ficção, não suportando a realidade, usando-a como párea para suas próprias frustações. Meu amigo pode ser muito talentoso, mas o que ele tem em talento, profundidade psicológica e mente afiada, ele tem em falta de carisma, desapego pelos mais simples valores sociais e até mesmo desprezo pela condição existencial de seu “lugar” na sociedade. São águas muito profundas as que ele se encontra.  É por isso que sei que nunca vou conseguir acompanhar sua maneira de viver. Se eu o fizesse, teria de me prejudicar tanto quanto ele se prejudica, ou até mais. Pois, apesar de tudo, M. tem uma incrível vantagem. Ele não tem nada. Não tem um vínculo amoroso forte o suficiente para lhe prender em uma família, muito pelo contrário, o conceito de família tende a repelir M. del V. Eu, que tenho minhas bússolas morais familiares, tenho muitas coisas a perder. Mas, ele não. É por esse motivo que M. del V. é um homem imprevisível, intangível e até mesmo perigoso; Pois, como se ameaça o estilo de vida de um homem que não tem nada a perder? M. é livre para viver como quiser, mas se prende em sua própria melancolia, tornando-se uma pessoa difícil – quase impossível – de se conviver. Sem ambições, objetivos, nem sequer sonhos para com a sociedade, M. del V. vive propositalmente à margem da sociedade – um vagabundo para a maioria –, sem dinheiro e nem dignidade padronizada.
Eu precisava voltar para o meu mundo, para a vida que construí. Mesmo que isso significasse deixar essa investigação sem uma devida conclusão. Caso contrário, eu me perderia na trama autodepreciativa que é a vida de meu amigo.
Agora já saíamos para a rua. Escurecia o céu, pintando com cores crepusculares o horizonte. Caminhávamos sentido ao mercado a céu aberto, em busca de algum taxista que pudesse nos levar de lá para o templo dourado. O fato engraçado era que, M. del V. se mesclava bastante entre os indianos. Parecia ser somente mais um na multidão, ainda mais com seu turbante. Afinal, sua cor era um, ou no máximo dois tons mais claros que a população punjabi. E, mesmo que minha cor fosse mais escura, – vestindo um turbante na cabeça – até mesmo eu me camuflava nessa diversidade indiana.
O frio chegava a nove graus Celsius. Isso fazia-me repensar se minha jaqueta e o sobretudo de meu amigo dariam conta de nos esquentar devidamente. Nós não estávamos incomodados. Mas, se a temperatura baixasse mais, poderíamos ter de nos refugiar do frio.
Às exatas 20h chegávamos ao nosso destino. Notava-se os transeuntes. Homens barbudos vestindo turbantes roxos, outros brancos e alguns laranjas. Mulheres com lenços na cabeças – de outras muitas cores –, e outras pessoas também de classe alta (evidentemente estrangeiros). Era um público não muito grande, pois o espaço da apresentação não se adequava a um público massivo. Parecíamos ser um grupo bem seleto de pessoas. Algumas sendo representantes importantes do siquismo (religião local), e outras sendo pessoas que provavelmente nos proporcionaram – monetariamente –  esse evento tão atípico. Ao observar esse grupo pomposo, eu me questionava. Como nós, M. e eu, poderíamos estar encaixados com tão seleto grupo?
O lugar esbanjava beleza. Ao atravessarmos o arco dourado da entrada pude compreender a total beleza do lugar que algumas muralhas brancas escondiam. O templo ficava no meio de uma espécie de lago artificial quadrado. Sua entrada se dava por meio de uma ponte coberta – decorada com flores –. O templo dava jus ao seu nome, parecia ser feito de ouro. E o lago – sendo por si só belo – refletia a imagem do céu e daquele templo reluzente, transformando parte do horizonte em um espelhado de belezas.
– Toma... melhor entrarmos com isso... – Disse M. del V., dando-me em mãos um broche.
Era um broche pequeno, de um dourado escuro e sem muitos detalhes. Nele, estava um símbolo fora de meu conhecimento. Mas, confiando em M., acreditei que aquilo nos ajudaria a nos encaixar contextualmente. O símbolo era formado por uma espécie de lâmina que atravessava um círculo, e duas cimitarras cruzadas em baixo.
Muito tempo depois, ao pesquisar esse símbolo, aprendi que se tratava do principal símbolo do siquismo. É um fato, a ignorância é uma porta que abre para uma parede de tijolos. Aquilo – o broche –, não passava de um mero detalhe para nossos disfarces. Um toque de originalidade. Mas que na época, me foi tão estranho quanto tudo o que M. del V. me fazia usar.
No templo, o interior também reluzia a cor dourada, mas com detalhamentos de paredes brancas. Era um lugar relativamente apertado, com dois andares – pelo pouco que reparei – e uma pomposa lona suspensa sobre nossas cabeças – de tecido grosso azul-claro. Ela pendia sob o exato centro do cômodo. Parecia ser onde o altar ficava. Onde os siques proferiam suas orações. Mas apesar disso, não havia nada no centro senão uma cadeira antiga de madeira escura, trabalhada com detalhes da cultura paquistanesa. Ao redor desse centro estavam outras poucas cadeiras iguais a essa, com seus braços e assentos bem trabalhados, mas já gastos pelo tempo.
M. del V. nos direcionou com rapidez para as cadeiras de um canto do templo. O lugar não se fazia distante – pois o templo não proporcionava espaço amplo –, mas que de maneira certeira fazia-nos despercebidos.
– Agora, só nos resta esperar. – Disse M.
Eu estava impaciente de curiosidade, mas meu amigo se encontrava em um outro estado de impaciência. Ele estava calmo e centrado. Porém, seu olhar havia mudado. Era um olhar que misturava medo com uma seriedade fora do comum. Era uma preocupação latente, que me fazia pensar numa ideia terrível. O clímax dessa narrativa poderia estar se aproximando, e a resolução poderia acontecer essa noite, de forma rápida e violenta.
Aí está uma escolha certa de palavras para descrever o acontecimento futuro dessa narrativa. Violenta. Sim pois, essa é uma noite envolta de tragédia – se é que realmente fora uma tragédia. Uma cena vista poucas vezes – senão, nenhuma – na vida. É extremamente grotesco e surreal assistir a morte de alguém. Principalmente, quando essa morte se apresenta de forma a surpreender. Deparamo-nos sempre com a morte de entes queridos, mas nós raramente assistimos de perto o processo de sua morte. É sempre quando o fim já se encontra definitivo. Assistir alguém, aparentemente saudável, morrer do nada, é algo que no mínimo deixa sequelas na psique humana.
Mas estou novamente alongando demais. Devo medir minhas palavras a partir daqui. Para que não haja engano – ou ambiguidade – sobre minha moralidade e nem sobre o destino de M. del V.
Eis que todas as cadeiras do cômodo são ocupadas, todas as peças do tabuleiro estão postas, menos a principal. J. Simon Aileen é apresentado. Ele adentra o cômodo, sério, mas com um semblante nobre de quem se orgulha de seu talento, ou, pelo menos, de sua entrada. Suas roupas são as mesmas que descrevi no apartamento. Inclusive, por causa de nosso anterior encontro – sendo não necessariamente um encontro, pois ele nem sequer vira meu rosto –, eu me sentia ingenuamente tímido, como se ele pudesse me reconhecer na plateia. O que não era o caso. Ao som de aplausos – inclusive os de M. – Simon faz de uma reverência e se senta na cadeira central. Ele abre o case de seu instrumento e retira o seu bem cuidado violino. Presumia-se tratar também, pelo cochicho da plateia, de um stradivarius. O homem então se põe rigidamente na postura de um violinista, pronto para tocar sua melodia.
Algo que deixou todos da plateia um tanto quanto inquietos, foi que o violinista não comentara o título da música que tocaria. E então, ao tocar, sustentando uma nota médio-grave, seguida de curtas notas agudas, nós soubemos de qual música se tratava. Espantado, olhei para meu amigo. E quando o vi, reparei também em sua expressão, um espanto. M. del. V. tentava manter sua expressão fria e centrada, mas via-se por seus olhos arregalados – tais quais os meus – que aquilo o havia pego desprevenido, mesmo com todas as suas ações planejadas. O músico acelera o compasso, e nos salões daquele lugar sacrossanto ecoaram –  em violino solo –  os tons da música composta pelo francês Camille Saint-Saens, sendo esta própria, Danse Macabre; uma entre o número de músicas mais bem-quistas pelo meu amigo. Simon tocou seu violino com a perfeição de um devido maestro. A burguesia que ali estava, desfrutava daquela música perversa, que embelezava mais ainda, com seus tons fortes e obscuros, o ambiente sacro.
Meu caro leitor, é com mais absoluto pesar quando digo que, a escolha dessa música é em sua natureza tão aterradora quanto a história da própria. Os seguintes eventos são o clímax de uma tarde fúnebre. A história de Danse Macabre tem como tema principal a própria Morte. Esta, segundo a lenda, aparece meia noite, em pleno halloween, para dançar com os mortos ressuscitados de suas tumbas. Onde – ao final da música –, retornarão para o sono abissal. Nisso, tende-se a pensar. Como seria a coincidência tão perversa, à ponto de ecoar por aquele templo, a música da Morte?
Ambos se comoviam, a plateia e o próprio músico. O compasso acelera novamente, e isso era uma infidelidade para com a melodia original. O violinista se inquieta, com medo nos olhos e uma evidente vermelhidão na pele. A vermelhidão se torna cada vez mais rubra. Mais, mais e mais. A rubridez se torna azulada. Até mesmo os espectadores presentes – preocupados e sem saber do que se tratava – haviam notado a expressão dormente do músico. O violino vibra sua nota, cada vez mais trêmula, intensa e desafinada. O público se exalta; levantam-se. Por conseguinte, a música para. O músico cai, com lábios azuis – em um semblante cadavérico –, com uma das mãos no peito e a outra no pescoço. Simon morre, sufocado em pleno concerto.
M. del V., como que acordado de um transe, olha para mim –  surpreso. Ele se levanta em meio à multidão e se esgueira pela bagunça, dizendo antes:  – Vamos, D.!  Temos de sair antes que todos se acalmem! –
E assim, meu amigo se esvaiu na multidão que tentava conceber a situação. Antes, ao entrar, eu observava cada detalhe que estivesse ao meu dispor. Agora, fugindo da multidão atônita, eu via borrões e focava minha atenção para qualquer lugar que eu pudesse avistar asfalto em vez da água negra e paredes brancas. Enquanto eu corria, sentia um sentimento estranho de culpa. Isso me fez mal. Porque eu haveria de sentir culpa? Em um breve estalar de consciência uma imagem me veio na mente, uma dessas como que emolduradas em madeira velha; minha família, minha filha sem seu presente e minha esposa sem respostas. Ao chegar a um conveniente ponto de táxi – digo conveniente, pois não sabia mais para onde correr –, um existencialismo barato me abateu. Por que eu havia de trocar minha vida – arduamente construída – por um quebra-cabeças envolto de incertezas e casos de morbidez embriagante? Em uma epifania tive certeza de uma coisa. Tinha de voltar para a realidade. Voltar para o mundo que eu me encaixava e que podia me acrescentar algo.




<< Parte 7 >>


Peguei um táxi, dessa vez me lembrado do endereço, arranhando um Punjabi forçado. Sucesso, o motorista conhecia o lugar.
Em meu caminho, na volta, eu havia me acalmado. A culpa cessou. Não há culpa para aqueles que não sabem quais crimes cometeram. Eu tinha um objetivo claro na minha mente, tinha de sair, de voltar para minha vocação. E, ao sair do táxi, lá fiquei eu, encarando a estalagem – agora já cheia de vida e freguesia –.
Serei breve nessa parte de meu relato, caro leitor(a). O que posso dizer por agora é que reencontrei meu amigo no salão da estalagem, sentado num sofá de visitas, anotando algo no que eu pensei ser o seu caderno pessoal. Assim que cruzamos os olhos, M. cessou sua escrita e me encarou, com olhos desalegres.
– Como se sente? – Disse.
– Não sei.
– Não sabe?  – Respondeu-me.
– Vou embora.
M. del V. estava surpreso, e em seu olhar podia-se se ver certa tristeza, junto de uma decepção escondida.
Acho que meu amigo não havia calculado minhas intenções tão precisamente quanto achava. Pois, eu queria que tudo aquilo acabasse de uma vez por todas. Eu queria respostas, mas esse meu desejo era menor do que minha vontade – mesmo que tênue – de preservar os meus objetivos pessoais.
– Está decidido então. – Disse M., não perguntando, mas concordando.
– Sim.
– Precisarei fazer uma outra ligação. – Disse novamente.
M. del V. ligou, sua conversa pareceu fria e sem especificações.
– Esperemos então. – Disse.
Eu evidentemente tinha mais perguntas, mas agora, evitava-as mais do que tudo. Esperamos por algumas horas. Minhas malas estavam prontas, assim como as de M. del V. O que me era estranho pois, ao observar seu apartamento, eu sabia que ele portava somente uma mala.
Esperamos. O que exatamente? Não saberia dizer.
Dois carros pretos de marca Rolls-Royce – o que depois aprendi serem do modelo Phantom – apareceram para nos pegar. Aqueles carros distintos com certeza contradiziam o nosso ambiente atual. Era como uma marca escarrada de cisão social bem no berço do comércio indiano. M. del V. não tinha um centavo sequer para se sustentar, mas ainda assim, estes eram os modelos de carros – caríssimos – que vinham nos buscar. Realmente, algo para se espantar, e até mesmo temer.
Os motoristas – como no costumeiro clichê – se prontificaram em pegar nossas malas. As minhas em um carro e as de M. del V. no outro. Antes que eu pudesse me direcionar para o veículo, uma imagem saiu de um dos carros que citei. Era um homem – ou senhor –, de aparência bem conservada. Tanto que, notava-se somente ser velho por conta seu cabelo e cavanhaque de tons grisalho intenso. Caucasiano, usava óculos de armação preta e lentes ligeiramente amareladas. Terno preto liso – desses que realçam traços de luz –, camisa preta, e uma gravata borboleta também preta. Era evidente que aquele era o devido proprietário dos carros e empregador dos motoristas. Seu semblante era rígido, mas bastante tenro em seus movimentos. Trazia consigo um guarda-chuva, que ao mesmo tempo lhe servia de bengala – o homem mancava.
Ele se aproximou o suficiente para se fazer presente – dois ou três passos à frente –, encarou M. del V., analisou suas roupas e riu – num riso rápido de natureza nasal.
– Elas lhe caíram bem. Aliás, tens o mesmo jeito dele. – Disse o senhor de garbo.
M. del V. olhou para suas roupas – como que esquecendo o que vestia – e acenou que sim com a cabeça.
– Sim, afinal são as dele. Deveria nos ver de turbante... –  Respondeu M. – Um último favor? – Continuou.
– Só este que lhe restou. – Respondeu o senhor, na mesma moeda de mistério. – Para onde desta vez? –
– Para casa. Para o meu amigo, a viagem mais breve ao Brasil.
– Esplêndido. E o caso?
– Resolvido.
– Tu realmente lembras o jeito dele.
– Era de se esperar, não?
– Não tanto.
Minha cabeça girava. Eu não entendia nada. Tal qual um espectador num show de mágica. Onde a quem só é revelado o que tem depois da cortina, nunca o que tem antes.
Foi então que meu amigo se aproximou, e com sua mão direita me ofereceu um devido adeus. Sua expressão, apesar de séria, estava com um aspecto alegre – de quem é grato por algo. Desnecessário apontar que, assim como somos ruins em cumprimentos de reencontros, também o seriamos com os de adeus.
Finalmente cumprimentado, pude me deixar sentir um grande alívio. Longe de mim querer me ver livre de M., mas sim de toda essa situação que me cai como um vício infeliz. Entrei num dos carros. Meu amigo no outro. E assim fui pego de surpresa por perceber a presença do tal homem de garbo que antes citei.
O homem parecia intrigado com a minha presença na história – da qual ele não parecia ter conhecimento algum. Confesso eu que, apesar de minha relutância, sabia que tinha de saber a identidade daquele homem, e o devido contexto de sua presença. Pois, pensando que, se soubesse isso, poderia correlacionar tais contextos com os do próprio M. del V.; desmistificando um pouco mais os pormenores de sua vida.
– Annibal Di Finta... Prazer em conhecê-lo. – Disse o senhor.
Desconcertado – e também surpreso – eu decidi respondê-lo.
– D. – Respondi, citando meu nome por inteiro. – Igualmente...
– Sei que está mais do que curioso, posso ver isso em sua expressão. Pois, se queres perguntar, perguntes. – Disse o senhor. Gastando todo o seu sotaque português.
Assim me decidi, e aceitei a oportunidade. Afinal, alguém finalmente se prestava a me responder com devidas respostas.
– Como conhece M. de V.? – Perguntei.
O homem riu na mesma sutileza e rapidez de antes.
– Somos conhecidos, de um mesmo círculo de outros conhecidos. – Respondeu.
DIABOS! Mais um que fala por enigmas! – Pensei comigo.
– Hora pois, me perdoe. Com relação a assuntos mais reveladores não estou no direito de dizer tanto. Digamos que, eu estava em uma dívida de favores para com o seu amigo. E em nosso círculo, quando tens um favor a dever, tu tens de atendê-lo. É a lei.
Lei? – Pensei novamente. – Mas, e com relação à Punjab? – Perguntei.
– Pois bem, exatamente. Eu o trouxe aqui como um desses mesmo favores. Teu amigo parece ter assuntos inacabados para com cá. Assim como eu o trouxera, terei de levá-lo. Assim com tu, para o Brasil.
– E... Quem é o homem de quem vocês dois se referiram como “Ele”?
– Ah, sim. O homem de quem falamos é uma pessoa muito querida por mim. Até mesmo amada, eu diria. Um grande amor com certeza...
O homem fez de uma pausa.
– Seu nome é Danton de N..., e antes, fora mentor de M. del V. – Observou a estrada por um momento e voltou a dizer: – Aliás, também o homem que o adotara legalmente.
Me era pesaroso entender que apesar de M. se portar de forma parecida com o que ele fora no passado, sua vida passou por muitas mudanças. Tantas que nem posso imaginar sem que me seja causado certa estranheza. Sendo esse, o tipo de fenômeno que te faz reavaliar suas relações pessoais rotineiras.
Cessamos o diálogo. Me vi numa situação de respeito, onde vi que sabia o que tinha de saber sobre a nova vida de M. del V., devia-lhe pelo menos um momento de privacidade; devia deixa-lo escrever sua história bem como lhe cabia.  Afinal, tenho certeza de que nessa história posso mais do que ser mero coadjuvante. Há aí uma história para um outro personagem, um outro “Watson”.
Era de muita nobreza – e gentileza – do caro senhor Annibal dispor de seu avião pessoal – um teco-teco conservadíssimo – para minha viagem de volta ao Brasil. De fato, até lá, pude me sentir alguém de patamar invejável. Mesmo que fizéssemos mais paradas do que voos definitivos.
Mas lá estava eu, de volta, sem respostas, e com palavras escassas de explicação para minha família. Aliás, vejo que estou repentino o meu discurso, como quem conta uma história repetidas vezes, nunca tomando nota de que ninguém mais quer ouvir essa ladainha.
Já sentado num banco de aeroporto, lembrei-me da pequena lembrança que eu me permiti trazer de Punjab. Com a mais absoluta urgência eu revirei minhas tralhas e trouxas, à procura daquele mísero elefante de madeira. Ele me consolaria. Com ele eu poderia voltar com um apelo emocional, e tirar um pouco o peso de minha culpa. Presentearia minha filha com algo envolto de cultura e história.
Caro(a) leitor(a), quero que imagine tal cena que estou prestes a relatar, pois ela me será útil ao fazer referência ao que senti quando não pude achar o maldito elefante. Imagine-se numa situação de quando não se acha uma chave e se está atrasado para algo importante. Ou quando se está arrumado para um evento crítico, mas aquela partícula de sujeira, que provém de um lugar impossivelmente fantasioso, lhe atinge; não em um local de fácil relance visual, mas naquele local onde ninguém põe os olhos quando se está adequado com o seu ambiente, mas que todo mundo acaba por reparar quando se está sujo, rasgado, ou somente inapropriado. Isso o que eu quero nomear é um tipo de embaraço social, onde se têm a sensação de que em seu rosto jaz uma hipotética e infeliz maquiagem de palhaço. Um “susto inadequado”, por assim dizer. Mas talvez tudo isso só faça sentido para mim, ou algum alter inapropriado.
Sim, não havia sinal do brinquedo. Revirei minha mala, deixando cair peças de roupas sujas, papeis aleatórios, e de certa forma, também a minha dignidade.
Inclinando-me majestosamente, tal qual um “pensador” de Rodin, eu buscava por algo em minha inepta memória. Talvez um lugar onde eu pudesse ter deixado tal objeto. Por que não estava na mala? O único motivo que me pareceu simples o bastante para acreditar seria que “alguém” havia pego.  O que me surpreendia, pois jurava que ninguém além de mim – e do astuto vendedor – sabia da existência dessa peça de madeira com rodas.
Hora de voltar para casa, enfrentar as consequências, e fazer o que eu faço com especialidade, voltar à realidade.
Depois de minha viagem, passou-se um tempo significativo. Já havia sido perdoado de minha insensatez para com minha família. Por duas semanas pude dormir excelentemente, sem nem sinal de remorso ou culpa. Infelizmente, isso seria somente o prelúdio de maus dias futuros. Na terceira semana pós-viagem eu me tornei – gradativamente – inquieto, irritadiço, descuidado, e até mesmo rancoroso. A falta de resolução do caso de Aileen havia me batido como um prego na cabeça. Tendo eu, inclusive, cortejado a ideia de escrever um diário de relato de minha empreitada, numa tentativa de melhor investigar esses eventos e assim ter minhas dúvidas satisfeitas e minha curiosidade saciada. Porém, nada me foi útil.
Nessa mesma semana, minha filha, vislumbrada com minhas menções à Punjab – tendo eu, omitido muitas das partes impróprias para suja idade – adquiriu um fascínio pelo meio musical. Mais precisamente, pelo violino. É de fato uma ironia – com certo grau de morbidez –, que o produto de assassinatos e intrigas tenha resultado na produtividade artística de minha filha. Tudo era muito desconcertante. Mas, eu queria entender parte desse universo. Ele se fazia conveniente com a minha fissura de desvendar o caso. Logo, cedi à ideia. Minha filha agora estava matriculada em aulas musicais. E que talento ela se revelou. Com pouquíssimo tempo ela já demonstrou uma nobre paixão pelo instrumento, sem ainda sequer ter um em sua posse.





<< Parte 8 >>

Era num fim de semana, dia ensolarado, de calmaria e fartura, quando bem à tardinha o papel chega em minha posse; uma outra carta, vinda de Portugal. Meu dia calmo definhara, influenciado também pelo meu humor habitual da época. Dito isso, recusei-me ler tal atrocidade de papel, pedindo à minha esposa que afastasse aquilo de minha visão. E assim ela o fez – temendo talvez, uma outra viagem de minha parte.
Outra semana se passou e minha investigação não trouxe resultados. Os caminhos – as narrativas – se embaralhavam em minha cabeça. Cheguei também a esquecer certos detalhes. Minha memória sofria – por conta de meu mal humor – e junto com ela se esvaia a minha atenção. Eu me zangava porque me distraía e me distraía porque me zangava. Com isso, minha relação familiar também sofreu, e por causa disso também me zanguei. Não com elas, mas comigo mesmo.
Na semana seguinte me encontrava melancólico, sem forças, numa miséria emocional. Repetindo uma rotina mecânica e infeliz. Deixei de ir aos ensaios de minha adorada filha. Deixei de amar minha doce esposa do jeito que ela merecia. Deixei levar-me por outro caráter que não fosse o meu próprio. Deixei-me querer ser M. del V. – queria sê-lo, e me entrosar nessa tal capacidade lógica. E então, a novidade degradou minha rotina. Foi-me entregue em casa um embrulho. Um que só tive conhecimento quando já se fazia aberto.
Eu chegava de meu dia no trabalho quando escutei uma coisa que não se ouvia muitas vezes em minha casa. Ouvia-se uma melodia. Não uma reproduzida por aparelhos. Outra mais pura, mais notável e agradável aos sentidos. Uma melodia que se sentia vibrar pelo ar. Era a minha filha, que tocava – o que eu descobri ser depois – o seu violino, segundo a minha esposa. Me vi boquiaberto. O que não me impediu de me deleitar ao ouvir primoroso som que saia dos arqueados de minha adorada filha.
– Agradeceu ao seu papai pelo presente, filha? – Disse minha esposa para a nossa filha.
Os eventos seguintes me foram rápidos e quase despercebidos, o abraço da minha filha e a piscadela de minha esposa. Não conseguia tirar sentido daquilo tudo.
Foi-me explicado então que, naquela tarde havia chegado a nós um tal embrulho, seguido de uma nota endereçada a mim. “Feliz aniversário, para a mais talentosa de todas” dizia a nota. Minha família se orgulhava de minha suposta expressão de afeto e carinho, da qual eu não conseguia explicar. Ao que parece, eu dei por compensar a minha viagem repentina. Mas aquele ato não provinha de mim, disso eu sabia. Provinha de outra pessoa. E o pensamento me veio. Um que explicava a falta de remetente do embrulho e o selo da caixa. Portugal, Lisboa.
Aquilo era obra dele...
Depois de alguns goles de licor – uma das minhas modestas aquisições de minha pseudo adega –  eu então me decidi. Tinha de ler a carta anterior que eu, com todas as minhas faculdades, recusei ler.
E assim o fiz...
“Caro D., sei que em nosso último encontro lhe fiz passar por um grande estresse, e por isso eu me desculpo. Sei que as circunstâncias de nosso breve encontro não foram das mais cabíveis de uma amizade antiga. Poderíamos quem sabe, ter conversado mais, e talvez exposto um para o outro os pormenores de nossas vidas afastadas. Porém, infelizmente a situação se mostrou complexa e problemática demais para qualquer tipo de relação. Tendo eu, outra vez, exposto você aos meus dramas pessoais e importunando seu grandiosíssimo caráter. ”
“Em suma, meu amigo, quero somente desabafar o que venho remoendo por estes dias que retornei a Portugal. Queria lhe dizer que sou muito grato por ter me salvado quando mais precisei. Pois, se pude concluir o caso, foi por ter ao meu lado o seu mais resoluto apoio. E por isso, sempre recordarei daquela viagem com afeto. Quero dizer, caro D., que eu cordialmente lhe invejo. Sei que meu gênio não transparece, mas tenho grande admiração pela pessoa que você se tornou desde os últimos tempos de pós-infância.  Me é difícil redigir esta carta, mas ainda assim, acho que tenho como obrigação explicitar minhas emoções. E sobre elas nada mais tenho a dizer.”
“Em nossa empreitada terminamos em um empasse no que se refere à objetivos de vida, e por isso, teimamos em deixar a história incompleta e sem a resolução dramática do detetive sabido. Afinal, você sabe muito bem que eu nunca perco a chance de um momento burlesco-dramático. E é com sincera certeza, que posso dizer que ambos nos frustramos com o desenrolar da trama. Por isso lhe escrevo essa carta. Para além de demonstrar o meu entusiasmo pelos ocorridos, elucidar e deixar às claras todas as minhas elaborações envolvendo o caso de Punjab. E com isso, talvez possamos por fim pontuar devidamente essa história.”
“Começarei primeiro pelos eventos ocorridos no trem. Relatarei os seguintes assuntos da mesma forma que fiz na época em que tudo ainda se fazia presente. ”
“Trata-se aqui de um ‘mistério da caixa fechada’. Um mistério muito comum em tramas literárias, mas extremamente raro em situações reais como esta, onde a vítima não teria condições de ser morta por qualquer meio de assassinato convencional. É, de fato, um caso intrigante, de forma que sua confecção também o seja. Aplicaremos aqui – só com intuito de simplificar os pensamentos – a navalha de Occam. Somente para que possamos pensar de forma fora do convencional e assim não nos limitar intelectualmente. Descartando, primeiramente, o improvável – a possibilidade de alguém, com exceção da própria vítima, ter estado dentro da cabine durante o ocorrido, sobrar-nos-ia a opção do suicídio. Logo, eu tendo a acreditar que a vítima tenha cometido seu próprio assassinato, porém, não de maneira deliberada. Assim, a palavra suicido, semanticamente aqui não se encaixa. Para que não haja ambiguidade, diremos que a vítima é a causadora de sua mortis, mas que, porém, não se trata de suicídio, por falta de intenção suicida. Ou seja, acredito que ela tenha cometido uma ação propriamente fatal.”
“Pergunta-se então: Como teria tal ato misterioso causado a morte da violinista? Para responder essa pergunta, preciso antes relatar os meus achados da cena do crime.”
“No pouco tempo que me foi dado, optei por poucas etapas em minhas observações da cena. E aqui estão escritas as minhas anotações feitas sobre o caso. Mas, de antemão já lhe aviso, meu caro amigo, que as observações aqui anotadas, apesar de parecerem um tanto quanto óbvias, são na verdade importantíssimas no que remete à solução do caso. As melhores pistas são aquelas misturadas ao óbvio.”
“Primeiro: observei que na cena do crime (com a ausência do corpo) não havia traços de sangue, muito menos impressões de algum tipo de luta ou ato violento. Nisso, de antemão, pude presumir que o que ocorrera ali não se relaciona com um crime passional. Pelo contrário, é uma demonstração acurada de crime premeditado. Segundo: não havia resquícios de invasão ou sequer da entrada de outrem (até mesmo animais). Se a morte da violinista ocorrera pelas mãos de um indivíduo, com certeza poderíamos considerá-lo uma entidade etérea. Mas sou um homem realista, e nunca consideraria tal hipótese com seriedade. Sendo assim, considera-se o pensamento de que a morte ocorrera por uma ação da falecida (como já presumido). Então é cabível pressupor este crime como sendo de um gênero específico, onde as ações do crime (deliberando uma conclusão fatal) foram desencadeadas antes da morte em si. Além de abrir o leque de opções para certos métodos de assassinato comumente adotados para este tipo de crime.”
“Quando posto dessa forma, pensa-se primeiro em envenenamento. Pois sim, este caminho é o mais cabível para respondermos nossas dúvidas. Veneno se encaixa no contexto, porém, infelizmente não se encontrava na cena do crime qualquer indício de um objeto portador de toxina. Nenhuma garrafa, frasco ou qualquer objeto que seja utilizado para comportar líquidos. Não se pensa em sólidos (comida), pois disso também não havia indícios. Formas injetáveis também não se via sinais (alfinetes, agulhas, dardos, etc.). E, mesmo que o assassino tenha se desfeito de tais objetos (o que eu não acredito ter acontecido), a maioria dos venenos são artifícios que requerem tempo para fazer efeito, adoecendo sua vítima aos poucos, desestabilizando suas funções fisiológicas uma de cada vez. Mesmo que Aileen tenha ficado algum tempo considerável sozinha, não acho que seria o suficiente para que a toxina fizesse estrago. Pois se tivesse sido envenenada antes de entrar no trem, seus sintomas seriam notados pelas pessoas ao seu redor, o que ocasionaria em um relato de condição depois de sua morte. Mas ninguém relatou sobre sua saúde, pois não havia o que se notar. Logo, pode-se intuir que ela estava saudável até o momento em que entrou na cabine. Mas ainda assim, eu não sou um conhecedor de venenos, logo, não posso dizer que não exista um, dois ou três toxinas que se manifestem instantaneamente. ”
“Uma coisa bem peculiar se apresentou conforme observei o trem com mais atenção. De baixo de um dos assentos, bem no fundo do cômodo, se encontrava uma peça de madeira. Ela não fazia parte do trem, mas sim do violino. Era o que se pode chamar de espaleira. Uma parte do violino destinada para o apoio do ombro. Se eu não me atentasse o suficiente teria visto essa descoberta como algo frívolo. Mas se você pensar direito, pode chegar a uma conclusão imprescindível. Como aquela espaleira fora parar debaixo do assento? Mesmo que Dhaval tivesse suas incompetências no que se refere ao processo dedutivo, suas habilidades como profissional da lei com certeza não o deixariam poluir a cena do crime. Sabendo depois também que, o assassino apareceu na cena do crime antes de mim, logo, pude imaginar que ele pegara o violino do chão. Ora, se ele tivesse conhecimento da espaleira, certamente a teria pego consigo. Logo, aquilo da espaleira estar bem debaixo do assento fazia parte do contexto do crime, e era uma prova fundamental. E por essas circunstâncias eu tenho um pensamento. Aquilo seria um indicativo de queda brusca, onde o violino fez contato com o chão do trem sem nenhuma técnica ou cautela. Afinal, se formos analisar um violino de perto, verá que, a espaleira não é uma peça fácil de ser solta, mas também não é difícil retirá-la, por justamente não ser parte essencial de um violino. Dito isso, seria preciso uma energia mecânica suficientemente forte para que, o violino, quando em contato com chão, tivesse sua espaleira deslocada para fora e debaixo do assento. Ao indicativo de queda, seria bastante provável que Aileen estivesse manuseando o seu violino na hora de sua morte.”
“Estando detido pela polícia, pude arranjar tempo para pensar melhor sobre a arma do crime e o modus operandi do assassino. Voltemos aos fatos. Um: a moça não entrou em contato com nenhum fator externo. Dois: dos meios de matar existentes, é provável que o método utilizado provenha de algum tipo de veneno ou componente corrosivo. Essa é a minha melhor premissa. Três: ainda não se sabe como esse veneno ou componente foi utilizado, digo, como se fez manifestar justamente quando a moça estava sozinha na cabina. Quatro: a moça descobre cartas duvidosas e preocupantes, e sua primeira reação é se encontrar com seu marido com urgência. Há aí algo de acusatório apontando para o marido, ainda mais quando sua mulher é encontrada morta durante o trajeto de trem.”
“Além do aparato de violino, também tomei conhecimento das tais cartas (reveladas a você em nossa viagem). Nisso, pude ver que umas delas não havia se tornado pública, pois sua data era bem recente, e por sinal não podia ser encontrada nas notícias jornalísticas. Minha comparação delas resultou na explicação que de fato a carta final não havia sido divulgada ainda. Era uma pista fresca e oculta das autoridades.”
“Progredirei em minha narrativa. Sobre o bilhete que deixei no hotel Mahara, tenha em mente a minha certeza sobre a culpa do esposo da vítima. Seria preciso comprovar tal culpa. Lembrando-me do trecho de poema escrito em todas as cartas do assassino em série, decidi enviar o mesmo poema para J. Simon, no intuito de causar uma reação. Se pensarmos que ele é inocente, essa mensagem não lhe será de nenhum significado, podendo ser facilmente ignorada, como qualquer aleatoriedade da vida. Porém, se de fato eu arrancar dele uma reação, significa que J. Simon sabe do que se trata o poema do bilhete, garantindo-lhe culpa ao tentar neutralizar uma possível testemunha.”
“Dito e feito. No dia em que eu saí cedo do apartamento confiei em ti para que vigiasse esse possível evento, enquanto me dirigia ao hotel Mahara. Se eu perguntasse por J. Simon, e ele não estivesse em sua suíte, sua culpa seria comprovada, pois certamente teria ido ao meu apartamento. Nessa altura da narrativa eu poderia adentrar em sua morada (por meios não convencionais) e investigar melhor o nosso culpado. E assim eu o fiz.
“Adentrei em seu cômodo e procurei pelo violino da vítima. Mas, em vez disso, acabei por encontrar o próprio violino de J. Simon. Estava em um case com o seu nome escrito. Por fim dei por procurar outras pistas não tão explícitas. Descobri que J. Simon tem uma coleção invejável de livros sobre a segunda guerra mundial, evidenciada pela perspectiva do eixo (nazistas). Observando tais livros, me foi claro que um dos fascículos da coleção era evidentemente mais usada, estando esse mais gasto do que os outros. É muito comum, quando se lê muito a mesma parte de um livro, que essa parte mais lida se abra sem precisar de muito esforço. Isso acontece principalmente com livros de brochura. A parte que me foi aberta relatava uma documentação detalhada de uma das técnicas de suicídio utilizadas pelos alemães nazistas, em caso de serem capturados pelas tropas inimigas. Era explicitado ali o uso do cianeto.”
“De acordo com a minha leitura, eles precisavam ingerir essas cápsulas de cianeto para que tal fizesse efeito. O que levantou novamente a questão... Como a vítima teria ingerido o componente?”
“Não tendo encontrado o violino certo, me recordei novamente da existência da chave descoberta por mim no trem. Procurei por possíveis cofres ou fechaduras. A chave era enumerada, o que contradizia a ideia de se encaixar em um possível cofre. Foi então que pensei estar focando minha imaginação em sistemas de segurança muito complexos para um quarto de hotel. Tinha de ser algo mais simples e discreto. Como, provavelmente, um armário.”
“E assim era. No subsolo do hotel encontrei um corredor de armários enumerados (condizente com o número de quartos) destinados ao uso dos hóspedes. No devido armário de J. Simon (que se abriu com a chave) eu achei tal violino - stradivarius. Desta vez, o certo; embrulhado com bastante prudência em um plástico resistente. Daí uma surpresa. Pois podia me ver olhando não somente para um violino caro, mas sim para a própria arma do crime. E como num susto, tal qual a um raio, esse pensamento me veio. Em uma reencenação do crime pude ver o método do assassinato. Sabia eu, agora, que o que ali estava embrulhado não era um objeto a ser cobiçado pelo assassino, mas sim temido.”
“Antes que eu me precipite em minha narrativa, tentarei aqui esclarecer o método utilizado pelo assassino em seu crime. Tempos atrás, em uma das minhas tentativas de “mestrar” uma habilidade, adentrei ao mundo da música, escolhendo o violino como primeiro instrumento. Sabendo você, muito bem, qual personagem literário a motivação me foi inspirada. Aprendi então as regras básicas do funcionamento do violino e de seu manejo – falhando miseravelmente nesta segunda opção. Um violino por si só –  ao contrário do violão –  não produz em sua forma crua um som melodioso. Antes de tocar um violino, deve-se primeiro executar uma série de preparamentos. Deve-se primeiramente friccionar o breu – uma espécie de composto da resina, confinado em um formato parecido com sabão – para que as cordas do arco produzam um som melódico quando em contato com as cordas do violino. É precisamente aí que se encontra a resposta de nosso caso... aos dotados das faculdades observatórias, deve-se notar que em qualquer momento onde um violino é tocado, a fricção que as cordas do arco produzem nas cordas do violino tendem a soltar estas partículas pequenas de pó. E devo dizer que estou impressionado com a engenhosidade de J. Simon ao pensar nessa solução para o seu desdenhoso ato.  Ao colocar cianeto em sua forma não diluída – logo, o pó – na pedra de breu, camuflando o próprio cianeto. E o instrumento, ao ser tocado, dispersará o componente tóxico nas vias respiratórias da pessoa que toca o instrumento, matando-a em um sufocamento repentino.”
“Explicando então, o motivo do embrulho plástico. Daí o motivo do roubo do instrumento. Afinal, J. Simon tem influência e dinheiro suficientes para não dar falta do valor monetário do instrumento.”
 “É mister aqui dizer que todas as elucubrações de minha mente não podiam ser usadas como provas definitivas de todo o acontecido. Nessa altura do jogo, eu precisava ter provas empíricas da culpabilidade do músico. Mas se eu estivesse certo, e o caráter de nosso suposto culpado fosse mesmo um reflexo de psicopatia e engenhosidade, o tempo que eu tinha para provar o ato do crime já havia se passado. Eu chamei a atenção do assassino em série ao deixar-lhe o bilhete, e se eu perdesse mais tempo, com certeza o perderia de vista. O homem se esvairia por entre meus dedos igual areia fina. Dito isso, eu precisava de uma solução rápida e que comprovasse minhas suspeitas de forma precisa.”
“Uma ideia pairou sobre mim. Trocarei os instrumentos. Trocarei o violino de J. Simon pelo da falecida, que ainda possuía traços de cianeto nas cordas. Feito isso, transferi também a espaleira de um instrumento para o outro, para que não houvesse diferença.”
“De certo modo, influenciado pelas mirabolantes histórias detetivescas, eu me deixei levar pelas minhas teorias e ignorei – inconscientemente – a ideia de que eu poderia estar sendo assertivo em minhas deduções, ignorando as consequências de minhas ações.”
“Você pode imaginar a minha sincera surpresa ao presenciar a morte de meu rival. Quando o músico padeceu com seu próprio método eu pude presenciar o começo de um sentimento de horror por meus atos. Mas, ele logo se foi, pois, minha asserção não fora sua causa mortis. A sua causa mortis fora a própria intencionalidade de J. Simon. Uma aplicação do próprio carma – que aliás é muito coincidente com o lugar de sua origem (Índia). Isso me fora o bastante para renunciar do remorso que me seria acometido se eu fosse de fato o causador da morte – o que eu não era. Tratava-se, em termos de carma, de suicídio. Uma reverberação das próprias ações de J. Simon.”
“Se eu estivesse errado de sua culpa, o homem estaria vivo e salvo. Por isso, meu amigo, tenha em mente que com essas respostas não precisará também recair ao remorso. Pois, eu, que me coloco como autor secundário, não me arrependo de minhas ações, e assim, você também não deveria se arrepender das suas.”
“Aqui eu me despeço, meu caro D. É com o mais grande pesar que penso nesta viagem como uma última recordação de nossa bem sabida amizade. E por isso, eu me entristeço. Pois, sei que, apesar da amizade sobreviver, os eventos da vida se fazem cruéis demais para manter o contato entre relações preciosas. Você agora tem o seu bem mais precioso, que é a sua família. Tens agora algo para se preocupar em perder. E por isso, eu lhe invejo. Espero que se abstenha de suas paixões momentâneas e se agarre às suas paixões eternas, assim como a escolha de construir sua família.”
“PS: Sobre o intrigante elefante de madeira; eu o confisquei. Me agradou muito ter uma lembrança dessa aventura. Até porque, o violino é melhor presente do que seria este brinquedo.”
“Atenciosamente, M. del. V.”
Ao ler a carta, me envolvo num emaranhado de sentimentos. Se as notas finais de M. não fossem jocosas, eu definitivamente derramaria lágrimas e aplaudiria a solução brilhante que me foi proposta. Me bate uma certa estima por ele... certo pavor de seu modo de pensar... certa curiosidade sobre suas próximas jornadas. E uma tristeza sincera, referente à melancolia de meu amigo. Mas no fim, não há necessidade de me rotular cúmplice de um crime, ou quem sabe, uma mísera peça de xadrez. Nada mais importa. Importa-me somente uma coisa agora. Ouvir as lindas notas que saem do vibrato de minha filha.


Fim

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