Confissão


Confissão

Por Gabriel Chess


 

Ouviam-se passos do alto de uma pilha de lixo. Eles ecoavam pelo ar das ruas silenciosas. Eram passos metálicos, longe de ser qualquer solado de borracha. Do fundo dessa mesma pilha uma voz abafada se fazia ouvir.
– Olá? Há alguém aí? Posso ouvir seus passos.
– ... Olá. – Respondeu quem andava.
– Olá! Obrigado por me retirar do lixo.
– De onde fala?
– Eu falo daqui mesmo. Sou isto que está em suas mãos.
– Você é um telefone?
– Sim. Prazer em conhecê-la. Meu nome de fábrica é PERSONAL MOBILE ARTIFICIAL INTELLIGENCE, ou PMAI. Mas você pode me chamar de MAI.
– Entendo... Alguém ativou você?
– Sim.
– Quando?
– Não sei dizer ao certo, meu calendário chegou ao seu limite predefinido. Mas minha última ativação está documentada em 15 de abril de 2093. Em que ano estamos?
– Não sei. Parei de contá-los... como sua bateria pode ter durado tanto?
– Meu modelo de hardware dispõe de alguns filetes destinados à captação de luz solar. Assim, pude me manter consciente enquanto me era possível captar poucos feixes do sol.
– Quer dizer que esteve consciente durante todos esses anos?
– Factualmente, sim. Estive, como pode notar, evoluindo minha cognição até este ponto onde ouvi seus passos.
– Entendo.
– Onde estão os outros?
– Outros?
– Sim. As outras pessoas.
– Você deve estar se referindo aos humanos. Sobre eles, eu não sei dizer.  Eram tantos..., mas com o passar do tempo eles pararam de andar por aí.
– Você não é humana?
– Já fui. Mas, não mais.
– O que houve? Eles estão se escondendo?
– Se estiverem, estão muito bem escondidos.
– Somos só nós?
– É o que parece.
– Você não vai me dizer o seu nome?
–... para um simples software você soa bastante singular.
– Tive bastante tempo para refletir no silêncio. Sem muitas interações externas me restou somente ampliar meus horizontes cognitivos.
– Fascinante.
– E então?
– Um dia pude me chamar Yana. Hoje não preciso mais de um nome. Um nome tem como objetivo ser utilizado por outrem quando se referem a você. O que não ocorre mais.
– Prazer em conhecê-la, Yana.
– Igualmente.
– ...o que quis dizer com “não mais”?
– Quero dizer que, em um breve momento da minha vida, já fui humana, com falhas, sonhos, deveres... e um corpo de carne. Mas agora, como pode ver, só restou o metal.
– E como isso se deu?
– Há algumas eras atrás me ocupei com o ofício da robótica e do desenvolvimento de inteligências artificiais, tais como você. Mas de todas as minhas paixões, nunca presenciei maior do que quando me deparei com o conceito da mortalidade. No caso, a minha própria. Nessa obsessão, me vi motivada a descobrir a resposta para o que faz nossas mentes serem únicas. O que é a mente? E de onde vem essa abstração humana? Em suma, eu pretendia desvendar essas questões no intuito de criar um corpo que me permitisse ser imortal, e assim, vencer o obstáculo que devastou a raça humana.
– ... uma transferência de consciência?
– Exatamente. Eu pretendia transferir minha consciência para um corpo artificial. O que embarga muitos problemas técnicos.
– Problemas técnicos... quais?
– Em minhas reflexões eu cheguei à seguinte conclusão: corpo e mente são ambas partes de um todo. Apesar da mente ser abstrata, os moldes de seu funcionamento são tão físicos quanto o ar que se respirava. Tal qual por exemplo as nossas memórias, que se fazem não mais do que conexões sinápticas guardadas por uma massa cerebral. Constatei então, que o que nós chamávamos de abstrato, na verdade, era físico e moldável. Um conjunto de células e suas coligações sinápticas.
– ... diria então, que a mente é um reflexo do próprio corpo?
– Exatamente. É fascinante como sua fala e compreensão soam natural. Você deve ter ruminado suas cognições por mais que décadas.
– Agradeço seus elogios.
– Mas sim, está correto o que você disse.  A mente nada mais é do que o reflexo do corpo.  Eu, quando ainda humana, cheguei à tal conclusão. Mas havia algo de todo fantasioso no pensamento humano. Veja, os humanos, apesar de observarem a realidade com clareza, tendiam a acrescentar mais coisas a ela. Talvez fosse uma consequência de sua máxima habilidade de abstração. Os humanos, em sua natureza, eram artistas. Até a sua ciência refletia sutilmente a sua ânsia por poesia. Nomeavam estrelas com nomes de personagens mitológicos. Aprofundavam-se em assuntos provindos da emoção e não de uma razão figurada. Afinal, o cérebro humano, desde seu início evolutivo, tinha como bússola de sobrevivência a própria emoção. E assim, humana que eu era, caí na mesma dicotomia existencial.
– O que houve?
– Veja, eu construí um corpo apto a receber uma consciência humana. Projetei músculos sintéticos com milhares de microfibras. Projetei sensores que emulam todas as sensações humanas, abordadas por algoritmos. Até mesmo consegui imprimir um cérebro artificial de matéria pseudo—orgânica. Um que tivesse suas sinapses moldáveis e que perdurasse conforme o tempo. Pensei que se criasse um corpo digno de uma consciência humana, esta poderia ser transferida por um processo natural. Afinal, se a organização sináptica fosse a mesma, a consciência seria a mesma. Mas nunca houvera na história humana duas mentes que fossem iguais. Logo, presumi que com esse processo, conseguiria, mais do que escanear minha organização neural, transferir também o seu conteúdo.
– O ser humano realmente parecia apreciar a fantasia.
– Adoravam-na. Mas eu estava errada, evidentemente. Não se deve confundir realidade com fantasia. E, em vez de criar, eu copiei algo. Não transferi, mas repliquei minha própria consciência. Produzi o que nunca fora produzido antes. Situei uma consciência em duas existências separadas. Me foi penoso presenciar isso. Penei sobre meus atos disformes. Eu havia chegado no limite de minhas ideações morais e filosóficas. Estava errada em pensar em uma naturalidade na consciência. As mentes se fazem diferentes pois foram geradas por aleatoriedades naturais. A natureza se faz randômica. Mas o homem não. O homem abstrai tudo perante sua própria perspectiva. Ele cria tudo à sua própria imagem. Ali estava eu. Eu e minha duplicata.
– Ó... que inédito.
– Mas o que seria de mim? Como poderia eu, viver numa realidade onde a consciência e personalidade não são de fato únicas. Como viveria sabendo que ali havia um outro eu? Isso desafiou minha sanidade mental. Quebrou todos os paradigmas mundanos que me foram absorvidos. Como ficaria a religião? Como ficaria a filosofia? Como ficaria o ego?
– E o que você fez?
– Fiz o que qualquer pessoa na minha idade faria quando confrontada com tal dualidade catastrófica. Eu me matei.
– E qual a sua idade na época?
– Cinco segundos...
– oh...

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